Resenha de Livro — Up on Down Girl
Sobre o livro de Kate Manne, “Down Girl (Garota Comportada)”.
O título do livro de Kate Manne, Down Girl (Garota Comportada), inicialmente me confundiu. Pensei que talvez fosse um romance do tipo “a garota no trem” ou um manual de treinamento para donos de cães. Como o subtítulo indica, no entanto, trata-se de um tratado sobre a lógica da misoginia. Na minha opinião, é um livro muito bom.

A alusão canina funciona, pois a análise cuidadosa de Manne sobre a retórica utilizada em discussões sobre violência contra as mulheres on-line (e em outros lugares) revela expectativas profundamente enraizadas de que as mulheres devem, idealmente, ser tão incondicionalmente amorosas e obedientes quanto animais de estimação bem treinados. Mulheres que não conseguem encenar esse ideal com sucesso tornam-se vulneráveis a formas de depreciação que parecem racionalizar formas vingativas de violência contra elas.
O que mais gosto no livro é o destaque dado às questões do cuidado, seu tratamento da submissão sexual como um subconjunto de atribuições sociais mais variadas e complexas. Enfatizando a importância do “trabalho emocional, social, doméstico, sexual e reprodutivo” que as mulheres são treinadas para fornecer, ela escreve (na p. 46): “A ideologia patriarcal recruta uma longa lista de mecanismos a serviço desse objetivo — incluindo a internalização pelas mulheres das normas sociais relevantes, narrativas sobre as inclinações e preferências distintas das mulheres e representações valorizadoras das formas relevantes de trabalho de cuidado como pessoalmente gratificantes, socialmente necessárias, moralmente valiosas, ‘legais’, ‘naturais’ ou saudáveis, desde que as mulheres as realizem.”
Manne tem recebido críticas por não ser mais atenta às diferenças interseccionais entre as mulheres. Susan Watkins, na New Left Review, achincalha sua simpatia pelas mulheres da classe dominante; um subtítulo rotula o livro como um “argumento moral-filosófico para um feminismo dos privilegiados”.
Excessivamente severo, na minha opinião. O livro teria sido ainda melhor se tivesse explorado paralelos com normas igualmente insidiosas de privilégio de raça e classe, incluindo o ridículo tropo de que “as pessoas geralmente recebem o que merecem”. Mas o tratamento analítico de Manne das normas implícitas na conversação pública cria um precedente útil para tal extensão.
Como um pequeno indicativo nessa direção, considere Bagehot na edição desta semana da The Economist, vangloriando-se da grande vitória dos Tories nas últimas eleições britânicas, a qual ele atribuiu à sua combinação hábil de “patriotismo e alegria”. Ao contrário dos Liberais e do Partido Trabalhista, “os partidos do vegetarianismo, dos clubes do livro e das reuniões”, os Conservadores sempre foram o partido do “champanhe, das mulheres e do bridge”. Aparentemente, todas as festas alegres devem incluir belos animais de estimação.