Mulheres Republicanas, Interseccionadas
Uma porcentagem muito maior de mulheres do que de homens votou em Joe Biden: a interseção raça/gênero mostrou-se mais saliente: 93 % das mulheres negras votaram em Biden, refletindo alianças históricas de longa data, a afiliação de Biden com Obama e uma aversão visceral a Trump.
Em novembro passado, se bem se lembra, uma porcentagem muito maior de mulheres do que de homens votou em Joe Biden (55 % em comparação a 46 %). A grande notícia foi que a lacuna de gênero permaneceu praticamente a mesma da eleição presidencial de 2016, apesar do descaso insensível de Trump pelas mulheres ou pela saúde pública. A interseção raça/gênero mostrou-se mais saliente: 93 % das mulheres negras votaram em Biden, refletindo alianças históricas de longa data, a afiliação de Biden com Obama e uma aversão visceral a Trump.
Entre as mulheres brancas, o nível de escolaridade foi decisivo: apenas 39 % das mulheres brancas sem diploma universitário votaram no presidente eleito. Isso pode ser interpretado como uma interseção classe/gênero se a classe for redefinida — como creio que deveria ser — para incluir o acesso ao capital humano, bem como ao financeiro.

Creio que Thorstein Veblen aprovaria esta interpretação — ele argumentou, por volta de 1919, que os engenheiros (os “tecnocratas” de sua época) tinham prioridades distintas que os diferenciavam tanto de outros trabalhadores quanto dos empregadores. Sua educação lhes dava acesso a melhores empregos, suas tarefas atribuídas exigiam respeito pela ciência e eles se preocupavam mais com a eficiência do que com os lucros. Os graduados no ensino superior — e especialmente os detentores de títulos avançados — são os engenheiros de hoje. Eles se saem melhor no mercado de trabalho do que outros trabalhadores, embora precisem se esforçar muito para isso. Um número significativo de mulheres conseguiu aproveitar essa rota de mobilidade ascendente. Em parte como resultado, as prioridades feministas foram marcadas por diferenças de classe que têm tanto a ver com credenciais quanto com riqueza.
Igualdade de oportunidades e proteções no emprego remunerado são muito mais relevantes para as mulheres com formação universitária e focadas na carreira, que ajudam a elaborar pesquisas de opinião, do que para a maioria das mulheres que concilia trabalho remunerado e trabalho familiar.
Considere, por exemplo, uma pergunta de pesquisa proeminente em um relatório recente da Brookings, questionando os entrevistados se “obstáculos significativos ainda tornam mais difícil para as mulheres progredirem do que para os homens”. Nesse contexto, progredir implica sucesso individual e material — acesso a dinheiro, liderança, fama. Em 2019, 83 % de todas as mulheres com tendência democrata, mas apenas 69 % de todas as mulheres, relataram que viam obstáculos significativos.
Esse padrão reflete tanto diferenças nos caminhos econômicos quanto percepções dos obstáculos neles contidos. Algumas pessoas se preocupam menos com seus salários individuais do que com suas contribuições para o sucesso de suas famílias e comunidades. Muitas mulheres se ofendem com a ideia de que tais contribuições refletem simplesmente uma falha em se dedicar inteiramente às suas próprias carreiras.
A lacuna salarial de gênero retira o poder das mulheres de formas profundas, e os esforços para reduzi-la devem ser uma prioridade máxima. No entanto, como os historiadores do feminismo notam há muito tempo, as tensões entre “igualdade” e “diferença” são dolorosas. Devem as mulheres tentar imitar os homens ou mudar a forma como as prioridades masculinas são recompensadas? Essas duas estratégias têm implicações muito diferentes.
Uma grande prioridade masculina são os ganhos, nosso marcador cultural de contribuição produtiva. A economista Nicole Fortin oferece evidências consideráveis de que as mulheres enfrentam desvantagens significativas no mercado de trabalho como resultado de valorizarem mais do que os homens o “trabalho com pessoas” e se preocuparem com a “utilidade de um trabalho para os outros e para a sociedade”. Em suma, as mulheres tendem a estar mais dispostas do que os homens a arcar com os custos do cuidado com o próximo.
Fortin descreve essa lacuna de cuidado nas preferências como um problema que — assim como as deficiências anteriores no nível de escolaridade — as mulheres deveriam tentar superar. Do ponto de vista dela, a preocupação com os outros é um obstáculo formidável para progredir, o que diz algo sobre o que “progredir” pode significar. Devem as mulheres “agir como homens”? Gostaria que mais pesquisas sobre preferências visassem desvendar percepções de raça, classe e gênero, para descobrir interseções entre a política do privilégio e as definições culturais de sucesso. Para saber mais sobre minha visão da economia política interseccional, confira meu novo livro.