Habilidades de Cuidado para o Planeta

Reflexões sobre por que precisamos considerar o cuidado social e o cuidado ecológico em conjunto.

Fiquei sem saber o que fazer quando me tornei mãe solo de uma criança de dois anos e meio. Como cuidar de uma criança pequena na ausência de oferta social de cuidados infantis e sem a rede habitual de apoio de familiares? Minha filha dependia de mim para tudo, então arregaçei as mangas e fui ao trabalho.

Nesse processo, passei a compreender e internalizar a empatia e os compromissos com o bem-estar dos outros, atributos que normalmente são ignorados em avaliações de desempenho no trabalho e em análises de remuneração salarial. Também aprendi algumas habilidades relevantes para cuidar do planeta, buscando eficiência, flexibilidade e resiliência.

Como uma entre as inúmeras mulheres que conciliam múltiplos papéis – cuidadora de crianças, dona de casa, provedora de renda –, eu trabalhava continuamente para administrar e usar com eficiência esse recurso altamente valioso chamado tempo. Algumas tarefas estão ligadas à organização da vida cotidiana e simplesmente não podem ser puladas ou adiadas, como alimentar, vestir, buscar na creche; outras podem ser mais flexíveis, como fazer compras e lavar roupa. E há tarefas que surgem inesperadamente e exigem atenção imediata, como levar uma criança doente ao médico. Definir prioridades e sequenciar as ações de forma eficaz é fundamental.

Às vezes, como muitas mulheres que trabalham, eu dava conta do trabalho reduzindo o tempo dedicado ao sono ou a atividades sociais. Na maior parte do tempo, porém, eu chegava ao limite biológico do número de horas de trabalho que conseguia encaixar em um dia e ainda ser eficaz. Eu tinha pouca escolha a não ser realizar duas ou mais atividades ao mesmo tempo. O multitarefas crônico, no entanto, pode sair pela culatra. Recorri a outras estratégias de enfrentamento, incluindo arranjos informais e cooperativos de cuidado infantil, etc.

O cuidado é um trabalho multifacetado e repleto de situações inesperadas: uma criança doente que não pode ir à creche ou uma pessoa de apoio ao cuidado que cancelou por causa de uma emergência. Essas incertezas exigem flexibilidade e até adaptação. Elas levam a avaliar a situação e desenvolver alternativas: Plano A, Plano B, …

Desafios semelhantes eram frequentemente enfrentados por mulheres que conheci durante meu trabalho de campo entre ocupantes urbanos na Tailândia, nas Filipinas e no Equador. Lembro-me de uma mulher que acordava antes do marido e ia até a bomba d’água comunitária. Como a espera acabou sendo longa, ela deixou o balde sem supervisão na fila e voltou para casa para preparar o café da manhã. Em seguida, colocou a comida para cozinhar no fogão e voltou para a fila, apenas para descobrir que seu balde havia sido chutado para fora e ela teve de voltar para o fim da linha. Quando finalmente chegou em casa, o café da manhã havia queimado.

Não é de surpreender que pesquisas mostrem que mulheres que são ao mesmo tempo “pobres de tempo” e “pobres de renda” estão sujeitas a estresse considerável e a problemas de saúde.

O apoio de cuidado que recebi de uma irmã e de amigos ao longo da maternidade solo fez uma enorme diferença. Também tive a sorte de ter um emprego que me permitiu pagar por serviços de cuidado infantil. Em países sem apoio governamental para o cuidado infantil, ou com apoio inadequado, muitos não têm a mesma sorte. Mães sem apoio familiar e de parentes ficam com as opções de deixar seus filhos pequenos em casa sozinhos ou levá-los consigo enquanto vendem nas ruas.

Como outras mães que trabalham, aos poucos construí resiliência em meio aos altos e baixos e às pesadas exigências do cuidado. Resiliência diz respeito à capacidade de absorver e lidar com perturbações e à capacidade de se adaptar ao estresse e à mudança. Talvez a “alteridade” do cuidado tenha me ajudado a superar ansiedades diárias e a ampliar minha consciência de interdependência com os outros.

Essas habilidades de cuidado — atenção aos outros, eficiência no uso do tempo, flexibilidade, adaptação e resiliência — são extremamente necessárias à medida que as sociedades lidam com o problema global decisivo do nosso tempo: a mudança climática. As soluções propostas por cientistas do clima são claras: precisamos reduzir o fluxo de materiais da economia global e diminuir os gases de efeito estufa reduzindo o uso de combustíveis fósseis.

As ações necessárias exigem muito de cada um e de todos nós. Precisamos desenvolver um modo de vida muito mais sustentável. Precisamos enfrentar as desigualdades e privações persistentes que estão sendo agravadas pela mudança climática. Como a The Earth Commission, uma grande rede de cientistas dentro da Global Commons Alliance, afirma, precisamos de uma “partilha equitativa dos benefícios, riscos e responsabilidades relacionadas à natureza entre todos os povos do mundo, dentro de limites seguros e justos do sistema terrestre, para fornecer suporte universal à vida”.

Para resistir à degradação ecológica que ameaça as gerações futuras, precisamos ser super eficientes no uso de recursos naturais cada vez mais escassos e valiosos, mudar nossas mentalidades e modificar nossos comportamentos.

Como Elinor Ostrom destaca, nenhum país pode resolver o problema global da mudança climática apenas com suas próprias ações. Mas, embora muitos efeitos da mudança climática sejam globais, muitas de suas causas operam em uma escala muito menor. Habilidades de cuidado poderiam ajudar indivíduos, famílias, comunidades, empresas e governos a proteger nosso futuro.

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A imagem da capa foi criada por Nancy Folbre.
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