A Teoria do Valor do Cuidado
Os limites dos mercados também ajudam a explicar por que esperamos que trabalhadores que prestam serviços de cuidado. Essa expectativa, em geral, embora nem sempre, cumprida, dificulta que trabalhadores do cuidado ameacem retirar seus serviços; ela reduz seu poder de barganha.
À medida que a pandemia de COVID-19 se alastra pelos EUA, muitos hospitais estão demitindo ou reduzindo os salários de médicos e enfermeiros, inclusive daqueles que trabalham na linha de frente. Sem poder realizar as cirurgias eletivas (incluindo lifting facial e substituição de joelho) que são suas maiores fontes de receita, os hospitais estão tendo enormes prejuízos com as vítimas da pandemia. Segundo uma estimativa, seus custos de tratamento da COVID-19 excederão os reembolsos em cerca de $1800 por caso.

Pode-se interpretar isso como uma denúncia da assistência à saúde orientada pelo mercado, ou como uma simples ilustração do ditado “os bonzinhos (e as boazinhas) acabam por último”. Isso também ilustra por que a maioria dos empregos que envolve cuidar de outras pessoas paga menos do que outros empregos, mantidas constantes as demais condições.
Na teoria econômica convencional, os preços (incluindo salários) são determinados pela interseção entre oferta e demanda. No equilíbrio de longo prazo, os preços deveriam ser iguais ao custo de produção. Um dos insights importantes da teoria marxista (e isto NÃO é a teoria do valor-trabalho) é que os salários são influenciados pelo poder de barganha coletiva dos trabalhadores como grupo.
Um indicador importante do poder de barganha coletiva é a taxa de desemprego. Quanto mais difícil for para você encontrar um emprego, mais importante se torna fazer exatamente o que seu empregador diz. O poder de monopólio também entra em jogo, pois permite aos empregadores o poder de definir salários no nível que lhes favorece.
Pelo menos outros três fatores afetam o poder de barganha coletiva de diferentes grupos de trabalhadores:
1) quem eles são (por exemplo, seu gênero, raça/etnia, cidadania)
2) quem consome os produtos do seu trabalho (por exemplo, pessoas ricas, pessoas pobres ou o setor público)
3) quão fácil é medir e capturar o valor criado por seu trabalho (o trabalho que contribui para o bem público não pode ser facilmente monetizado nem mesmo quantificado).
A influência generalizada da lógica centrada no mercado torna o ponto 3 o mais difícil de explicar. A razão pela qual dependemos de instituições públicas, famílias privadas e comunidades cuidadoras, além dos mercados, é que nossos ativos mais importantes — ativos naturais, serviços ecológicos E outras pessoas — não têm um preço de mercado. Eles não são comprados e vendidos. Os limites dos mercados também ajudam a explicar por que esperamos que trabalhadores que prestam serviços de cuidado — independentemente de seu nível de escolaridade — literalmente cuidem — isto é, sejam motivados pela preocupação com o bem-estar dos outros. Essa expectativa, em geral, embora nem sempre, cumprida, dificulta que trabalhadores do cuidado ameacem retirar seus serviços; ela reduz seu poder de barganha.
Isso não implica que trabalhadores do cuidado não possam se mobilizar, se sindicalizar ou protestar contra seus salários e condições de trabalho. Implica, sim, que é difícil fazê-lo, particularmente em uma crise como a que enfrentamos hoje. Alguns médicos — aqueles que prestam serviços especializados facilmente mensuráveis e reembolsáveis — ganham salários altos. Especialistas em saúde pública e médicos de atenção primária ficam bem mais abaixo em um espectro de rendimentos cuja base é ocupada por trabalhadores de cuidado infantil e de cuidado de idosos, com enfermeiros e professores no meio. A maioria dos trabalhadores do cuidado sofre uma penalidade em relação a outros com a mesma escolaridade e experiência.
Trabalhadores de serviços financeiros, em contraste, recebem um prêmio salarial significativo. E as empresas de serviços financeiros resistiram vigorosamente a uma “regra fiduciária” proposta pelo governo Obama que teria imposto um “dever de cuidado” legal aos consultores financeiros, exigindo que agissem no melhor interesse de seus clientes — uma responsabilidade custosa. O altruísmo, ao que parece, é um gosto caro.
Para reforçar minha teoria do valor do cuidado, recorro às palavras de Warren Buffett, o Sábio de Omaha, referindo-se a estratégias de investimento. “Preço é o que você paga; valor é o que você recebe.” Só que ele não acerta bem os pronomes quando se trata de trabalhadores do cuidado na linha de frente hoje: valor é o que você recebe, mas preço é o que eles pagam.