Tecendo transbordamentos para seguir cuidando: o caso dos comedores populares de Lima, Peru

As mulheres dos comedores populares geram diversas formas de agência — conscientes ou não, explicitamente feministas ou não — para assegurar, direta e indiretamente, o cuidado. Trata-se de um exercício de transbordamento constante do Estado a partir do cotidiano e, por meio de relações de cooperação e/ou confrontação com o Estado.

“Não contamos com alianças com o Estado, mas tiramos o que podemos”, afirmava uma mulher organizada no comedor popular Los Diamantes, localizado no distrito de Comas, em Lima. Essa afirmação expressa o tipo de relação que as mulheres dos comedores populares de Lima estabelecem com o Estado peruano. Às vezes, consideram necessário cooperar e, como por vezes se enuncia, ser funcionais ao Estado; em outras, confrontam de forma estratégica. Trata-se de um território minado, no qual qualquer passo em falso pode lhes custar o fechamento de suas organizações, mas que é necessário articular para existir.

Os comedores populares no contexto

Os comedores populares surgiram durante a segunda metade do século passado, em um contexto de grandes mudanças estruturais no Peru e de precarização da vida em todos os sentidos. Esse período implicou uma transição rumo ao fortalecimento do sistema empresarial, antes caracterizado por seu caráter de enclave, à consolidação da liberalização econômica e à democratização. Essas mudanças e a crescente migração para cidades como Lima trouxeram consigo necessidades materiais que o Estado não conseguiu resolver, entre elas, a alimentação.

Esse contexto foi cenário do surgimento, de forma autogestionária e auto-organizada, de associações de moradores, organizações de bairro, comedores populares, entre outras. A divisão sexual do trabalho apareceu como transversal, pois o trabalho das mulheres no cuidado de meninos e meninas, na atenção aos maridos e na procriação era desvalorizado, não apenas em termos salariais — por ser gratuito —, mas também em termos sociais.

Diversas ONGs acompanharam essas organizações, tanto religiosas quanto feministas, embora estas últimas tenham surgido um pouco mais tarde. Em particular, junto a ONGs feministas, os comedores populares elaboraram propostas para seu reconhecimento pelo Estado, incluindo um subsídio às porções que oferecem, sem sucesso no início. Essa articulação implicou a origem da Federación de Mujeres Organizadas en Centrales de Comedores Autogestionarios y Afines de Lima y Callao (FEMOCCPAALC) e, posteriormente, da Confederación Nacional de Mujeres Organizadas por la Vida y el Desarrollo Integral (CONAMOVIDI).

A precariedade se intensificou durante o governo de Alberto Fujimori (1990–2000), após a aplicação de políticas de ajuste estrutural que fortaleceram a neoliberalização do país diante da hiperinflação vivida pelo Peru no fim da década anterior. De fato, os comedores populares ampliaram sua presença e elaboraram um projeto de lei que reconhece o trabalho desenvolvido pelas organizações para a alimentação e um subsídio não inferior a 65 % do custo das porções. Em 1991, foi aprovada por unanimidade parlamentar uma norma a respeito, embora sua regulamentação tenha demorado vários anos.

Esse evento e uma série de medidas abriram caminho para uma relação próxima entre o governo de turno e as organizações sociais. Cabe assinalar que essa relação tem sido caracterizada pela desmobilização dessas organizações e pela cooptação e subordinação por parte do Estado. Além disso, tratou-se de um governo que instituiu a repressão a toda forma de organização social que disputasse com o Estado como resposta considerada necessária.

Tecendo transbordamentos a partir das experiências das mulheres

O contexto descrito nos coloca a seguinte pergunta: como se organizam as mulheres dos comedores populares após seu reconhecimento, considerando a lógica constante de repressão à organização social por parte do Estado peruano? A esse respeito, argumento que as mulheres precisam transbordar sua relação com o Estado para cuidar porque, além disso, o subsídio que recebem é insuficiente para cobrir suas necessidades. No cotidiano, elas geram lógicas de reconhecimento e agradecimento às suas mães e às mulheres fundadoras de seus comedores populares pelo trabalho realizado. Com elas, mantêm uma relação hierárquica e de obediência, pois entendem sua experiência como sabedoria. Ao mesmo tempo, estabelecem relações de amizade e confiança e se constituem como espaços de diálogo, confiança, amizade e partilha.

Embora pareça contraditório, os conflitos cotidianos também sustentam os comedores populares, porque as fortalecem nas decisões que tomam para se manter. Eles podem ser disputas para oferecer alimentos gratuitos a pessoas em situação de vulnerabilidade ou abandono (os chamados casos sociais), a sobrecarga de trabalho, a queda da participação de mulheres jovens, a falta de autocuidado, bem como conflitos com suas famílias pelo tempo dedicado ao trabalho.

A autogestão lhes permite criar melhores condições materiais para se organizar. As mulheres vendem as porções que cozinham a preços bastante baixos, contribuem financeiramente todos os meses ou fornecem insumos que, nos casos em que a agricultura é seu trabalho, são produzidos por elas, abrem novos negócios como a venda de sobremesas, assim como se envolvem em projetos com ONGs.

Além de sustentar cotidianamente os comedores populares, as mulheres cooperam e confrontam o Estado. Em termos de cooperação com o Estado, aprendem e colocam em prática as normas existentes, não apenas sobre suas organizações, mas também utilizam normas que reconhecem promotoras de saúde, educação e áreas legais, pois são úteis para contribuir de forma integral com sua comunidade. Também recorrem ao orçamento participativo para melhorar a infraestrutura de seus espaços, assim como a diferentes instâncias do Estado para capacitações, como os Ministérios de Desenvolvimento e Inclusão Social, da Mulher e Populações Vulneráveis e as Prefeituras Distritais. Do mesmo modo, recorrem a autoridades locais, coordenadoras distritais dos comedores populares ou federações de comedores populares em nível local e nacional, com influência sobre autoridades com capacidade de decisão em assuntos de seu interesse.

Embora tenham uma história de mobilização por seu reconhecimento e de tentativas de fechamento de suas organizações ou de redução de orçamento, atualmente afirmam que é necessário ser cuidadosas e estratégicas para se mobilizar. As mulheres sabem que existe a possibilidade de que seus comedores populares sejam fechados se entrarem em disputa com o Estado. Cabe assinalar que elas não apenas se articularam por melhores condições para manter suas organizações, como também se manifestam no Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, no Dia de Luta contra a Violência de Gênero e até mesmo contra governos antidemocráticos como o de Dina Boluarte (2022–hoje).

O diálogo com as mulheres me permite afirmar que o sentido de cuidado que atravessa organizações como esta é unidirecional, voltado a pessoas vulneráveis; a sobrecarga de trabalho é a normalidade e, embora o autocuidado seja mencionado, ele se dilui no cotidiano, devido ao que aprenderam de suas ancestrais e ao que é reproduzido pelo Estado desde que transfere a responsabilidade de cuidar para as mulheres mais empobrecidas. A partir dessa forma de pensar a necessidade de cuidar, elas geram estratégias que podem implicar diálogo ou disputa com o Estado, porque seu principal objetivo é resolver a necessidade de alimentação que surgiu, em muitos casos, desde que passaram a viver em Lima. É a isso que me refiro com transbordar o Estado: transitar pela normativa existente, aproveitá-la e até mesmo investigar estratégias fora dele.

Ainda restam muitas perguntas a fazer. Apresentarei algumas para reflexão: como as características particulares dos territórios, seus processos de urbanização e contexto penetram na forma de organização das mulheres e em suas experiências de cuidado? Que implicações a repressão social tem em experiências organizativas como estas? Que papel cumprem instituições privadas, como ONGs, na sustentação dessas organizações e que particularidades imprimem nelas? Que diferenças e particularidades implica a lógica empreendedora que se destaca na forma de organização peruana, em comparação com outros países da região?

A foto é de Jazmin Goicochea Medina e foi tirada durante o trabalho de campo para minha dissertação de mestrado “Tejiendo desbordes en la relación de las mujeres de los comedores populares de Lima y el Estado peruano.”

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