Práticas de cuidado comunitário em um coletivo de mulheres na Cidade do México durante a pandemia

Compreender as formas pelas quais o cuidado é praticado em cidades como a Cidade do México, onde desigualdades sociais, econômicas e de gênero estão profundamente entrelaçadas, é um dos meus interesses de pesquisa. Com essas preocupações em mente, aproximei-me do estudo do cuidado comunitário urbano.

Neste texto, compartilho reflexões sobre como, durante a pandemia, um Colectivo de mujeres feministas que cuidan (CMFC) realizou práticas de cuidado alimentar, entregando cestas de alimentos e refeições a mulheres e suas famílias, e proporcionando apoio emocional entre si. Analisar grupos autogeridos como este Coletivo ressoa com a proposta de Vega e Martínez (2017)[2] de abordar o cuidado comunitário a partir de sua heterogeneidade, compreendendo que existem diversas modalidades e formas pelas quais a vida cotidiana é sustentada por meio de redes, vínculos e espaços que transcendem a família nuclear, o Estado e o mercado. Os atores dessas atividades são sujeitos coletivos.

Ao mapear iniciativas cidadãs para enfrentar a pandemia na Cidade do México em 2020, aproximei-me do trabalho do CMFC. Este Coletivo, composto por sete mulheres com idades entre 30 e 40 anos, com ensino superior e pertencentes a estratos econômicos baixos e médios, iniciou suas ações antes da pandemia. Elas se conheceram em uma feira feminista nas redes sociais e na marcha do Dia da Mulher em março de 2018.

Interessa-me destacar não apenas o cuidado contínuo proporcionado pelo Coletivo a partir do espaço comunitário, mas também explorar as condições que o tornaram possível. Nesse sentido, um elemento-chave foi a mobilização de recursos materiais e simbólicos, arrecadando dinheiro e doações por meio de redes sociais (Facebook e Instagram) e conectando-se com uma ampla rede de mulheres e organizações civis. A ativação de mulheres que forneciam apoio econômico e demonstravam solidariedade também revelou uma distribuição desigual de recursos e estratificação do cuidado neste espaço comunitário, com algumas dedicando mais tempo e esforço físico para as entregas, enquanto outras contribuíam economicamente por meio de transações monetárias online.

Por outro lado, a flexibilidade no tempo e o tipo de relação com o mercado de trabalho, onde a informalidade desempenha um papel central nos casos analisados, criam condições para múltiplas jornadas de trabalho de cuidado não remunerado realizadas por mulheres, simultaneamente nos âmbitos comunitário e familiar. O tempo aqui abriga uma contradição: é um recurso que facilita a participação no espaço comunitário e, ao mesmo tempo, contribui para a manutenção das desigualdades de gênero.

O cuidado proporcionado pelo CMFC foi itinerante, abrangendo diferentes áreas da cidade, um cuidado em movimento. Por exemplo, uma mulher que trabalhava como entregadora também entregava cestas de alimentos para o Coletivo. As práticas de cuidado foram também multissituadas, ocorrendo em diferentes locais (casas, estações de metrô) e online por meio de videochamadas. O cuidado proporcionado pelo Coletivo ilustra uma lógica de sobreposição de tipos de cuidado e espaços onde o cuidado é prestado, abrangendo tanto o cuidado emocional quanto o alimentar, e mostrando a permeabilidade dos espaços de cuidado que se estendem do espaço comunitário ao lar.

As mulheres do Coletivo compartilhavam uma situação de vulnerabilidade econômica, agravada pela pandemia. Elas experimentavam raiva em relação ao Estado devido às deficiências nas políticas sociais de cuidado, o que, combinado com a confiança entre elas, facilitava as tarefas de cuidado em tempos de crise. Isso mostrou como as lacunas de proteção social e as emoções delas derivadas desencadearam processos dentro do Coletivo para proporcionar cuidado.

Embora o caso do CMFC confirme que o cuidado comunitário urbano reproduz a ordem de gênero tradicional, onde as mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado com cargas de trabalho intensas, dentro do grupo havia reflexões sobre a importância do autocuidado. Essas reflexões às vezes levavam a práticas de autocuidado, como encontrar tempo de lazer, cuidar de sua alimentação e tomar seus medicamentos. Em outras palavras, as mulheres do Coletivo tentavam posicionar-se como sujeitas de cuidado e não apenas como provedoras dele, além de explorar uma maternidade pública que politiza o cuidado.

O caso do CMFC reflete uma dinâmica de gênero feminizada no ambiente comunitário urbano, seguindo uma lógica expansiva de prestação de cuidado que gera bem-estar e sustenta a vida, mas enraizada em uma estrutura desigual. Continuar explorando o cuidado comunitário urbano durante e além da pandemia, como sugere Gago (2018)[3], pode ajudar-nos a compreender as formas de exploração dos corpos feminizados na sociedade capitalista e, ao mesmo tempo, explorar como a reprodução da vida coletiva é organizada a partir de lógicas não extrativistas.

[Versão em espanhol]

Prácticas de cuidados comunitarios en un colectivo de mujeres en la Ciudad de México durante la pandemia

Compreender as formas pelas quais o cuidado é praticado em cidades como a Cidade do México, onde desigualdades sociais, econômicas e de gênero estão entrelaçadas, é um dos meus interesses de pesquisa. Com essas inquietações em mente, aproximei-me do estudo dos cuidados comunitários urbanos.

Neste texto, compartilho reflexões sobre como, durante a pandemia, um Coletivo de Mulheres Feministas que Criam (CMFC) realizou práticas de cuidados alimentares, entregando cestas básicas e refeições a mulheres e suas famílias, bem como cuidados emocionais entre elas. Analisar grupos autogestivos como este Coletivo ressoa com a proposta de Vega e Martínez (2017)[4] de abordar o cuidado comunitário a partir de sua heterogeneidade, compreendendo que existem diversas modalidades e formas pelas quais a vida cotidiana é sustentada por meio de redes, vínculos e espaços que transcendem a família nuclear, o Estado e o mercado. Os atores dessas atividades são sujeitos coletivos.

A partir da realização de um mapeamento de iniciativas cidadãs para enfrentar a pandemia na Cidade do México em 2020, aproximei-me do trabalho do CMFC. Este Coletivo, formado por sete mulheres com idades entre 30 e 40 anos, com ensino superior e pertencentes a estratos econômicos baixos e médios, iniciou suas ações antes da pandemia. Elas se conheceram em uma feira feminista nas redes sociais e na marcha do dia da mulher em 8 de março de 2018.

Interessa-me visibilizar não só os constantes cuidados proporcionados pelo Coletivo a partir do espaço comunitário, mas também explorar as condições que o tornaram possível. Nesse sentido, um elemento-chave foi a mobilização de recursos materiais e simbólicos que realizaram, arrecadando dinheiro e doações por meio de redes sociais (Facebook e Instagram) e conectando-se com uma ampla rede de mulheres e organizações civis. A ativação de mulheres que forneciam apoio econômico e demonstravam solidariedade também revelou uma distribuição desigual de recursos e de estratificação de cuidados neste espaço comunitário, com algumas dedicando mais tempo e esforço físico para as entregas, enquanto outras contribuíam economicamente por meio de transações monetárias online.

Por outro lado, a flexibilidade no tempo e o tipo de relação com o mercado de trabalho, onde a informalidade tem centralidade nos casos analisados, estabelece condições para que se dê uma multiplicidade de jornadas de trabalho de cuidados não remunerados realizadas por mulheres, em simultaneidade entre o âmbito comunitário e o familiar. O tempo aqui abriga uma contradição: é um recurso que favorece a participação no espaço comunitário e, ao mesmo tempo, contribui para que se mantenham as desigualdades de gênero.

O cuidado do CMFC foi itinerante, abrangendo distintas zonas da cidade, um cuidado em movimento. Por exemplo, uma mulher que era entregadora por seu trabalho, ao mesmo tempo, fazia a entrega das cestas básicas do Coletivo. As práticas de cuidado foram também multissituadas, realizando-se em diferentes lugares (casas, estações de metrô) e online por meio de videochamadas. O cuidado que realizou o Coletivo mostra uma lógica de sobreposições de tipos de cuidados e espaços onde se cuida, abrangendo tanto cuidados emocionais quanto alimentares, e mostrando a porosidade dos espaços de cuidado que se estendiam do espaço comunitário até o lar.

As mulheres do coletivo compartilhavam uma situação de vulnerabilidade econômica, agravada pela pandemia. Experimentavam raiva em relação ao Estado pelas deficiências das políticas sociais de cuidado, o que, combinado com a confiança entre elas, facilitava as tarefas de cuidado em tempos de crise. Isso mostrou a maneira pela qual a desproteção social e as emoções que dela derivam desencadearam processos no Coletivo para proporcionar cuidados.

Embora o caso do CMFC confirme que o cuidado comunitário urbano reproduz a ordem de gênero tradicional, onde as mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado com cargas de trabalho intensas, dentro do grupo surgiam reflexões sobre a importância do autocuidado. Essas reflexões às vezes levavam a práticas de cuidado próprio, como buscar tempo de lazer, cuidar de sua alimentação e tomar seus medicamentos. Ou seja, as mulheres do Coletivo tentavam posicionar-se como sujeitas de cuidado e não só como provedoras dele; além de explorar uma maternidade pública que politiza os cuidados.

O caso do CMFC reflete uma dinâmica de gênero feminizada no ambiente comunitário urbano, seguindo uma lógica expansiva de prestação de cuidados que gera bem-estar e sustenta a vida, mas enraizada em uma estrutura desigual. Continuar explorando os cuidados comunitários urbanos na pandemia e além desse período, retomando Gago (2018)[5], pode ajudar-nos a compreender as formas de exploração dos corpos feminizados na sociedade capitalista e, ao mesmo tempo, explorar como se organiza a reprodução da vida coletiva a partir de outras lógicas não necessariamente extrativistas.


Eva Villanueva

[1] Contato: evamarpurpura@gmail.com Universidad Nacional Autónoma de México. Esta reflexão deriva de minha tese de doutorado: El barrio cuida al barrio. Practices and circuits of care at the community level during the COVID-19 pandemic in Mexico City.

[2] Vega-Solís, C. y Martínez-Buján, R. (2017). Explorando el lugar de lo comunitario en los estudios de género sobre sostenibilidad, reproducción y cuidados. Quaderns-e de l’Institut Català d’Antropologia, (22 (2)), 65-81.

[3] Gago, V. (2018). Neo-comunidad: circuitos clandestinos, explotación y resistencias. En, Vega, Martínez y Paredes (eds), Cuidado, comunidad y común. Traficante de sueños.

[4] Vega-Solís, C. y Martínez-Buján, R. (2017). Explorando el lugar de lo comunitario en los estudios de género sobre sostenibilidad, reproducción y cuidados. Quaderns-e de l’Institut Català d’Antropologia, (22 (2)), 65-81.

[5] Gago, V. (2018). Neo-comunidad: circuitos clandestinos, explotación y resistencias. En, Vega, Martínez y Paredes (eds), Cuidado, comunidad y común. Traficante de sueños.

Foto da autora. Licenciada sob Creative Commons

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