Acompanhamento Feminista do Aborto: Um Modelo Emergente de Cuidado nos EUA

O modelo latino-americano de acompanhamento feminista do aborto surgiu nos EUA como uma resposta de base comunitária a leis restritivas sobre o aborto e a barreiras de acesso. Redes como a mexicana Las Libres fornecem pílulas abortivas gratuitas e apoio virtual, impulsionados pela solidariedade feminista transnacional e intergeracional

Las Libres, uma organização mexicana na linha de frente da construção de redes de acompanhamento do aborto autogerido em todas as Américas, está atuando nos EUA. Suas integrantes criaram a Red Transfronteriza, uma rede transfronteiriça que atende diariamente dezenas de solicitações de pílulas abortivas gratuitas e apoio — apesar dos desafios legais. Essa iniciativa se apoia na história mexicana de cuidado do aborto de base comunitária, na qual redes como Las Libres e outras há muito praticam apoio comunitário como estratégia para resistir à criminalização e ampliar o acesso em ambientes legais restritivos. A rede transfronteiriça reúne acompañantes experientes do México e centenas de voluntárias americanas — muitas das quais foram mobilizadas para a ação em 2022.

Ao mesmo tempo, o cenário fragmentado de acesso ao aborto nos EUA no pós-Dobbs foi remodelado pelo surgimento de redes comunitárias sediadas no país. Esses grupos fornecem pílulas abortivas gratuitas por correio e oferecem apoio de doula (virtual). Tais redes, muitas das quais estão listadas em plataformas como Plan C, atuam ao lado de Las Libres, combinando princípios de acompanhamento com estruturas como ajuda mútua e redução de danos para oferecer um cuidado essencial.

A Onda Verde está chegando ao Norte

Como um ator-chave do movimento da Onda Verde na América Latina, Las Libres enfatiza a “descriminalização social”. Essa abordagem utiliza o aborto autogerido e a solidariedade feminista para normalizar o aborto na sociedade, promovendo uma mudança nas atitudes públicas e contribuindo para reformas legais, como ocorreu no México. O Modelo Integral de Acompañamiento para un Aborto Seguro (MIAAS) de Las Libres é uma rejeição radical da responsabilização reprodutiva e desafia a governança reprodutiva por meio da oferta de acesso gratuito e alegál ao aborto, informações críticas e espaços (virtuais) sem estigma para quem busca um aborto. Ao cultivar relações entre pares, seu modelo capacita quem recebe o cuidado a se tornar também acompañante, promovendo um crescimento orgânico, impulsionado pela comunidade.

Em 2021, mudanças legais significativas em ambos os lados da fronteira EUA–México catalisaram a expansão de Las Libres para os Estados Unidos. A Suprema Corte do México proferiu decisões históricas que contribuíram para a descriminalização gradual do aborto, enquanto o Texas aprovou a proibição do aborto após seis semanas, a SB8, precursora da decisão Dobbs da Suprema Corte dos EUA. Esse momento decisivo levou Las Libres a estabelecer a Red Transfronteriza, com foco inicial em apoiar migrantes latinas. No entanto, a demanda aumentou de forma dramática após Dobbs, quando milhões de americanos perderam o acesso ao aborto legal.

O rápido aumento de solicitações sobrecarregou a pequena equipe em Guanajuato, no México. Em resposta, Las Libres fez parceria com Fuck the Patriarchy (FTP), um coletivo composto predominantemente por ativistas americanas brancas mais velhas, muitas das quais foram mobilizadas pela derrubada de Roe v. Wade. A FTP criou um sistema paralelo para adaptar o modelo de acompanhamento ao contexto dos EUA, enfatizando protocolos estruturados e medidas de segurança para administrar a demanda.

A Política do Acompanhamento

Apesar das diferenças em seus métodos, tanto Las Libres quanto a FTP compartilham um compromisso fundamental com a ampliação do acesso ao aborto. Ambas oferecem cuidado abortivo alegál, informações críticas e apoio virtual a pessoas que enfrentam leis restritivas que fragilizam sistemas concebidos para controlar comportamentos reprodutivos. Elas também ilustram como o cuidado de base comunitária pode ser adaptado além-fronteiras, equilibrando necessidades imediatas com a defesa, no longo prazo, de mudanças sistêmicas. Ambas as abordagens contribuem para a luta mais ampla contra a governança reprodutiva, oferecendo uma estratégia dupla de cuidado e resistência. Ainda assim, minha pesquisa mostrou que a divergência de métodos reflete diferenças políticas mais profundas.

Para Las Libres, o acompanhamento é inerentemente político, com o objetivo de desmontar o estigma e desafiar a governança reprodutiva. Seu compromisso com a “descriminalização social” prioriza visibilidade, acessibilidade e o crescimento orgânico das redes. As ativistas veem o acompanhamento como uma ferramenta para transformar normas sociais e fomentar a resistência coletiva à criminalização do aborto.

Para a FTP, o clima jurídico dos EUA exige discrição. Sua abordagem pragmática se concentra na eficiência operacional e na segurança, garantindo um cuidado confiável sob ameaça constante de criminalização. Essa postura cautelosa atende a necessidades imediatas, mas pode correr o risco de despolitizar o acompanhamento, enquadrando-o como um serviço, e não como uma ferramenta de solidariedade e transformação sistêmica.

“O México está dizendo a você: aqui está a solução”

O surgimento de redes de acompanhamento feminista do aborto nos EUA representa uma poderosa resposta de base comunitária à erosão do acesso legal ao aborto. Ao adaptar estratégias da América Latina, essas redes têm fornecido cuidado essencial a milhares de pessoas, ao mesmo tempo que desafiam os sistemas que buscam limitar ainda mais a liberdade reprodutiva. Essas redes em evolução destacam como o cuidado de base comunitária pode remodelar o acesso ao aborto, atendendo a necessidades imediatas enquanto enfrenta o estigma e impulsiona a luta por mudanças sistêmicas — um lembrete de que o ativismo de base tem o poder de transformar sistemas e vidas.

Nas palavras de uma ativista: “O México está dizendo a você: aqui está a solução.” O caminho a seguir está em abraçar a diversidade de estratégias e perspectivas dentro do acompanhamento feminista do aborto e do apoio comunitário, garantindo que esse cuidado permaneça acessível, empoderador e revolucionário.

Share:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *