{"id":6203,"date":"2025-06-17T00:01:06","date_gmt":"2025-06-17T00:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/tecendo-transbordamentos-para-seguir-cuidando-o-caso-dos-comedores-populares-de-lima-peru\/"},"modified":"2026-09-11T13:02:24","modified_gmt":"2026-09-11T13:02:24","slug":"tecendo-transbordamentos-para-seguir-cuidando-o-caso-dos-comedores-populares-de-lima-peru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/tecendo-transbordamentos-para-seguir-cuidando-o-caso-dos-comedores-populares-de-lima-peru\/","title":{"rendered":"Tecendo transbordamentos para seguir cuidando: o caso dos comedores populares de Lima, Peru"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o contamos com alian\u00e7as com o Estado, mas tiramos o que podemos\u201d, afirmava uma mulher organizada no comedor popular Los Diamantes, localizado no distrito de Comas, em Lima. Essa afirma\u00e7\u00e3o expressa o tipo de rela\u00e7\u00e3o que as mulheres dos comedores populares de Lima estabelecem com o Estado peruano. \u00c0s vezes, consideram necess\u00e1rio cooperar e, como por vezes se enuncia, ser funcionais ao Estado; em outras, confrontam de forma estrat\u00e9gica. Trata-se de um territ\u00f3rio minado, no qual qualquer passo em falso pode lhes custar o fechamento de suas organiza\u00e7\u00f5es, mas que \u00e9 necess\u00e1rio articular para existir.   <\/p>\n\n<div style=\"height:37px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os comedores populares no contexto<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os comedores populares surgiram durante a segunda metade do s\u00e9culo passado, em um contexto de grandes mudan\u00e7as estruturais no Peru e de precariza\u00e7\u00e3o da vida em todos os sentidos. Esse per\u00edodo implicou uma transi\u00e7\u00e3o rumo ao fortalecimento do sistema empresarial, antes caracterizado por seu car\u00e1ter de enclave, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o. Essas mudan\u00e7as e a crescente migra\u00e7\u00e3o para cidades como Lima trouxeram consigo necessidades materiais que o Estado n\u00e3o conseguiu resolver, entre elas, a alimenta\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse contexto foi cen\u00e1rio do surgimento, de forma autogestion\u00e1ria e auto-organizada, de associa\u00e7\u00f5es de moradores, organiza\u00e7\u00f5es de bairro, comedores populares, entre outras. A divis\u00e3o sexual do trabalho apareceu como transversal, pois o trabalho das mulheres no cuidado de meninos e meninas, na aten\u00e7\u00e3o aos maridos e na procria\u00e7\u00e3o era desvalorizado, n\u00e3o apenas em termos salariais \u2014 por ser gratuito \u2014, mas tamb\u00e9m em termos sociais. <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diversas ONGs acompanharam essas organiza\u00e7\u00f5es, tanto religiosas quanto feministas, embora estas \u00faltimas tenham surgido um pouco mais tarde. Em particular, junto a ONGs feministas, os comedores populares elaboraram propostas para seu reconhecimento pelo Estado, incluindo um subs\u00eddio \u00e0s por\u00e7\u00f5es que oferecem, sem sucesso no in\u00edcio. Essa articula\u00e7\u00e3o implicou a origem da Federaci\u00f3n de Mujeres Organizadas en Centrales de Comedores Autogestionarios y Afines de Lima y Callao (FEMOCCPAALC) e, posteriormente, da Confederaci\u00f3n Nacional de Mujeres Organizadas por la Vida y el Desarrollo Integral (CONAMOVIDI).  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A precariedade se intensificou durante o governo de Alberto Fujimori (1990\u20132000), ap\u00f3s a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de ajuste estrutural que fortaleceram a neoliberaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds diante da hiperinfla\u00e7\u00e3o vivida pelo Peru no fim da d\u00e9cada anterior. De fato, os comedores populares ampliaram sua presen\u00e7a e elaboraram um projeto de lei que reconhece o trabalho desenvolvido pelas organiza\u00e7\u00f5es para a alimenta\u00e7\u00e3o e um subs\u00eddio n\u00e3o inferior a 65 % do custo das por\u00e7\u00f5es. Em 1991, foi aprovada por unanimidade parlamentar uma norma a respeito, embora sua regulamenta\u00e7\u00e3o tenha demorado v\u00e1rios anos.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse evento e uma s\u00e9rie de medidas abriram caminho para uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre o governo de turno e as organiza\u00e7\u00f5es sociais. Cabe assinalar que essa rela\u00e7\u00e3o tem sido caracterizada pela desmobiliza\u00e7\u00e3o dessas organiza\u00e7\u00f5es e pela coopta\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o por parte do Estado. Al\u00e9m disso, tratou-se de um governo que instituiu a repress\u00e3o a toda forma de organiza\u00e7\u00e3o social que disputasse com o Estado como resposta considerada necess\u00e1ria.  <\/p>\n\n<div style=\"height:37px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tecendo transbordamentos a partir das experi\u00eancias das mulheres<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto descrito nos coloca a seguinte pergunta: como se organizam as mulheres dos comedores populares ap\u00f3s seu reconhecimento, considerando a l\u00f3gica constante de repress\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social por parte do Estado peruano? A esse respeito, argumento que as mulheres precisam transbordar sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado para cuidar porque, al\u00e9m disso, o subs\u00eddio que recebem \u00e9 insuficiente para cobrir suas necessidades. No cotidiano, elas geram l\u00f3gicas de reconhecimento e agradecimento \u00e0s suas m\u00e3es e \u00e0s mulheres fundadoras de seus comedores populares pelo trabalho realizado. Com elas, mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica e de obedi\u00eancia, pois entendem sua experi\u00eancia como sabedoria. Ao mesmo tempo, estabelecem rela\u00e7\u00f5es de amizade e confian\u00e7a e se constituem como espa\u00e7os de di\u00e1logo, confian\u00e7a, amizade e partilha.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora pare\u00e7a contradit\u00f3rio, os conflitos cotidianos tamb\u00e9m sustentam os comedores populares, porque as fortalecem nas decis\u00f5es que tomam para se manter. Eles podem ser disputas para oferecer alimentos gratuitos a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade ou abandono (os chamados casos sociais), a sobrecarga de trabalho, a queda da participa\u00e7\u00e3o de mulheres jovens, a falta de autocuidado, bem como conflitos com suas fam\u00edlias pelo tempo dedicado ao trabalho. <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autogest\u00e3o lhes permite criar melhores condi\u00e7\u00f5es materiais para se organizar. As mulheres vendem as por\u00e7\u00f5es que cozinham a pre\u00e7os bastante baixos, contribuem financeiramente todos os meses ou fornecem insumos que, nos casos em que a agricultura \u00e9 seu trabalho, s\u00e3o produzidos por elas, abrem novos neg\u00f3cios como a venda de sobremesas, assim como se envolvem em projetos com ONGs. <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de sustentar cotidianamente os comedores populares, as mulheres cooperam e confrontam o Estado. Em termos de coopera\u00e7\u00e3o com o Estado, aprendem e colocam em pr\u00e1tica as normas existentes, n\u00e3o apenas sobre suas organiza\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m utilizam normas que reconhecem promotoras de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e \u00e1reas legais, pois s\u00e3o \u00fateis para contribuir de forma integral com sua comunidade. Tamb\u00e9m recorrem ao or\u00e7amento participativo para melhorar a infraestrutura de seus espa\u00e7os, assim como a diferentes inst\u00e2ncias do Estado para capacita\u00e7\u00f5es, como os Minist\u00e9rios de Desenvolvimento e Inclus\u00e3o Social, da Mulher e Popula\u00e7\u00f5es Vulner\u00e1veis e as Prefeituras Distritais. Do mesmo modo, recorrem a autoridades locais, coordenadoras distritais dos comedores populares ou federa\u00e7\u00f5es de comedores populares em n\u00edvel local e nacional, com influ\u00eancia sobre autoridades com capacidade de decis\u00e3o em assuntos de seu interesse.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora tenham uma hist\u00f3ria de mobiliza\u00e7\u00e3o por seu reconhecimento e de tentativas de fechamento de suas organiza\u00e7\u00f5es ou de redu\u00e7\u00e3o de or\u00e7amento, atualmente afirmam que \u00e9 necess\u00e1rio ser cuidadosas e estrat\u00e9gicas para se mobilizar. As mulheres sabem que existe a possibilidade de que seus comedores populares sejam fechados se entrarem em disputa com o Estado. Cabe assinalar que elas n\u00e3o apenas se articularam por melhores condi\u00e7\u00f5es para manter suas organiza\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m se manifestam no Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, no Dia de Luta contra a Viol\u00eancia de G\u00eanero e at\u00e9 mesmo contra governos antidemocr\u00e1ticos como o de Dina Boluarte (2022\u2013hoje).  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O di\u00e1logo com as mulheres me permite afirmar que o sentido de cuidado que atravessa organiza\u00e7\u00f5es como esta \u00e9 unidirecional, voltado a pessoas vulner\u00e1veis; a sobrecarga de trabalho \u00e9 a normalidade e, embora o autocuidado seja mencionado, ele se dilui no cotidiano, devido ao que aprenderam de suas ancestrais e ao que \u00e9 reproduzido pelo Estado desde que transfere a responsabilidade de cuidar para as mulheres mais empobrecidas. A partir dessa forma de pensar a necessidade de cuidar, elas geram estrat\u00e9gias que podem implicar di\u00e1logo ou disputa com o Estado, porque seu principal objetivo \u00e9 resolver a necessidade de alimenta\u00e7\u00e3o que surgiu, em muitos casos, desde que passaram a viver em Lima. \u00c9 a isso que me refiro com transbordar o Estado: transitar pela normativa existente, aproveit\u00e1-la e at\u00e9 mesmo investigar estrat\u00e9gias fora dele.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda restam muitas perguntas a fazer. Apresentarei algumas para reflex\u00e3o: como as caracter\u00edsticas particulares dos territ\u00f3rios, seus processos de urbaniza\u00e7\u00e3o e contexto penetram na forma de organiza\u00e7\u00e3o das mulheres e em suas experi\u00eancias de cuidado? Que implica\u00e7\u00f5es a repress\u00e3o social tem em experi\u00eancias organizativas como estas? Que papel cumprem institui\u00e7\u00f5es privadas, como ONGs, na sustenta\u00e7\u00e3o dessas organiza\u00e7\u00f5es e que particularidades imprimem nelas? Que diferen\u00e7as e particularidades implica a l\u00f3gica empreendedora que se destaca na forma de organiza\u00e7\u00e3o peruana, em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses da regi\u00e3o?    <\/p>\n\n<div style=\"height:37px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A foto \u00e9 de Jazmin Goicochea Medina e foi tirada durante o trabalho de campo para minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado <em>\u201cTejiendo desbordes en la relaci\u00f3n de las mujeres de los comedores populares de Lima y el Estado peruano.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres dos comedores populares geram diversas formas de ag\u00eancia \u2014 conscientes ou n\u00e3o, explicitamente feministas ou n\u00e3o \u2014 para assegurar, direta e indiretamente, o cuidado. 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