{"id":6146,"date":"2025-03-30T17:13:19","date_gmt":"2025-03-30T17:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/governanca-do-cuidado-como-um-recurso-urbano\/"},"modified":"2026-09-11T13:02:10","modified_gmt":"2026-09-11T13:02:10","slug":"governanca-do-cuidado-como-um-recurso-urbano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/governanca-do-cuidado-como-um-recurso-urbano\/","title":{"rendered":"Governan\u00e7a do \u201cCuidado\u201d como um Recurso Urbano?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que a urbaniza\u00e7\u00e3o se acelera globalmente, as cidades tornaram-se os principais cen\u00e1rios e locais da crise da reprodu\u00e7\u00e3o social \u2014 uma crise enraizada na eros\u00e3o das capacidades reprodutivas ecol\u00f3gicas e sociais que sustentam a vida. Uma perspectiva da teoria urbana feminista destaca que o urbano n\u00e3o \u00e9 meramente um l\u00f3cus onde a crise da reprodu\u00e7\u00e3o social se desenrola, mas tamb\u00e9m um processo espacial din\u00e2mico onde as lutas pelos interesses p\u00fablicos e comuns s\u00e3o renegociadas e reformuladas como resultado da reimagina\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o capitalismo e a (re)produ\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma perspectiva de reprodu\u00e7\u00e3o social nos ajuda a compreender a centralidade das atividades e infraestruturas de sustenta\u00e7\u00e3o da vida para a manuten\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Como argumentam os te\u00f3ricos que moldam a Abordagem Inicial da Reprodu\u00e7\u00e3o Social, a reprodu\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 externa \u00e0 produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica; pelo contr\u00e1rio, ela produz as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es e a for\u00e7a de trabalho que tornam a produ\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Desta perspectiva, as casas, as creches e instala\u00e7\u00f5es de cuidados a idosos, e os espa\u00e7os p\u00fablicos \u2014 onde as rela\u00e7\u00f5es de cuidado s\u00e3o formadas e exercidas \u2014 constituem o urbano como um <strong>processo<\/strong> de reprodu\u00e7\u00e3o social. Esses \u201cespa\u00e7os de cuidado\u201d, por sua vez, moldam desigualdades urbanas mais amplas.   <\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cuidado como trabalho, atividade e rela\u00e7\u00f5es mais-que-humanas<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem m\u00faltiplas abordagens conceituais para o cuidado. A te\u00f3rica pol\u00edtica feminista <a href=\"https:\/\/www.taylorfrancis.com\/books\/mono\/10.4324\/9781003070672\/moral-boundaries-joan-tronto\">Joan Tronto<\/a> define o cuidado como atividades que mant\u00eam, cont\u00eam e reparam o nosso mundo para que possamos viver nele t\u00e3o bem quanto poss\u00edvel. <a href=\"https:\/\/www.annualreviews.org\/content\/journals\/10.1146\/annurev.so.15.080189.002121\">Barbara Laslett e Johanna Brenner<\/a>, a partir de uma perspectiva sociol\u00f3gica, enfatizam o cuidado como o trabalho que mant\u00e9m a vida existente e permite a reprodu\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es futuras. Complementando esta abordagem centrada no ser humano, uma lente de ecologia pol\u00edtica feminista destaca as dimens\u00f5es ecol\u00f3gicas do cuidado, enfatizando as depend\u00eancias entre as capacidades sociais e ecol\u00f3gicas. Como argumenta <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/elements\/forces-of-reproduction\/BE9B0DBDC89593F3284FE3F51D3B0418\">Stefania Barca<\/a>, o cuidado n\u00e3o \u00e9 apenas o trabalho de tornar a natureza n\u00e3o humana apta para a reprodu\u00e7\u00e3o humana, mas tamb\u00e9m o trabalho de proteg\u00ea-la da explora\u00e7\u00e3o e garantir condi\u00e7\u00f5es para a sua pr\u00f3pria regenera\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reunindo estas tr\u00eas abordagens, proponho uma abordagem do cuidado baseada em recursos \u2014 que reconhece o cuidado tanto como trabalho quanto como infraestrutura, moldado por condi\u00e7\u00f5es materiais e pela depend\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas. Embora as dimens\u00f5es de trabalho do cuidado sejam fundamentais para o desempenho e a presta\u00e7\u00e3o do cuidado e para a forma\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de cuidado, o contexto espacial e as condi\u00e7\u00f5es materiais determinam o cuidado ontologicamente. No contexto do urbano, estas condi\u00e7\u00f5es materiais incluem a habita\u00e7\u00e3o, o acesso a alimentos, \u00e1gua e energia, e o espa\u00e7o p\u00fablico, bem como o tempo que \u00e9 negociado diariamente entre o trabalho gerador de renda e o trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado que sustenta a vida, particularmente para crian\u00e7as, idosos e doentes. Esta negocia\u00e7\u00e3o constante entre o trabalho remunerado e o n\u00e3o remunerado a n\u00edvel individual, familiar e comunit\u00e1rio \u00e9 um aspecto fundamental que define as condi\u00e7\u00f5es do cuidado no contexto urbano, tamb\u00e9m em liga\u00e7\u00e3o com a provis\u00e3o p\u00fablica das condi\u00e7\u00f5es materiais para o cuidado.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desta perspectiva, o cuidado pode ser entendido como um <strong>recurso<\/strong> \u2014 que \u00e9 sistematicamente extra\u00eddo das comunidades atrav\u00e9s de processos de comodifica\u00e7\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado e aumento da depend\u00eancia de servi\u00e7os baseados no mercado. A medida em que as autoridades p\u00fablicas apoiam e facilitam as capacidades de cuidado determina o grau de privatiza\u00e7\u00e3o do cuidado, seja como responsabilidade ou fardo do indiv\u00edduo, seja como um servi\u00e7o de mercado a ser adquirido. Em outras palavras, a <strong><em>recursializa\u00e7\u00e3o do cuidado<\/em><\/strong> sintetiza a \u201ccrise do cuidado\u201d que se manifesta atrav\u00e9s da extra\u00e7\u00e3o de capacidades sociais, da comodifica\u00e7\u00e3o do trabalho como meio de sobreviv\u00eancia no urbano e da privatiza\u00e7\u00e3o do cuidado como uma mercadoria de mercado sob a press\u00e3o da financeiriza\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas da vida.  <\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Novos Municipalismos como um Sistema de Governan\u00e7a de Recursos<\/strong><strong> para o Cuidado?<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Abordar o cuidado como um recurso que possui dimens\u00f5es materiais e imateriais abre novas possibilidades conceituais e pol\u00edticas para transforma\u00e7\u00f5es institucionais que governem o recurso do cuidado como um bem comum: de forma coletiva, inclusiva, baseada em necessidades e sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto nos leva ao novo\/radical municipalismo, experi\u00eancias e experimentos pol\u00edticos de transforma\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a local para desafiar a recentraliza\u00e7\u00e3o do poder impulsionada pelo mercado na aloca\u00e7\u00e3o e provis\u00e3o de recursos urbanos. Enraizado em tradi\u00e7\u00f5es municipalistas hist\u00f3ricas, o municipalismo radical contempor\u00e2neo foi moldado por movimentos como a plataforma <strong><em>Barcelona en Com\u00fa<\/em><\/strong> na Espanha, que surgiu ap\u00f3s a crise financeira de 2008, e outras iniciativas semelhantes que tentam recuperar a cidade da privatiza\u00e7\u00e3o liderada por corpora\u00e7\u00f5es e pelo Estado. Estes movimentos frequentemente defendem e experimentam a democracia participativa, a sustentabilidade ecol\u00f3gica e o controle p\u00fablico ou cooperativo sobre servi\u00e7os essenciais, como habita\u00e7\u00e3o, creches e transporte p\u00fablico.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de cerca de uma d\u00e9cada de \u00edmpeto pol\u00edtico, os novos movimentos municipalistas enfrentam desafios estruturais e contradi\u00e7\u00f5es na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas transformadoras dentro das estruturas institucionais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas existentes. Estudiosos descrevem isto como a \u201ccrise do novo municipalismo\u201d para sublinhar tens\u00f5es fundamentais, incluindo restri\u00e7\u00f5es institucionais que atrasam objetivos transformadores, tens\u00f5es entre movimentos de base e a institucionaliza\u00e7\u00e3o dentro da organiza\u00e7\u00e3o municipal, depend\u00eancia fiscal do Estado e dos mercados, e desafios de escala dados os limites do localismo e a fragmenta\u00e7\u00e3o sem um apoio institucional mais amplo. Estas limita\u00e7\u00f5es revelam que, embora o novo municipalismo crie aberturas para o controle democr\u00e1tico dos recursos urbanos, ele n\u00e3o garante inerentemente uma mudan\u00e7a estrutural que afaste o cerceamento do cuidado atrav\u00e9s da comodifica\u00e7\u00e3o e da mercantiliza\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Municipalismos do Cuidado para Mitigar as Crises do Cuidado e do Novo Municipalismo<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Proponho os \u201cMunicipalismos do Cuidado\u201d (Care-full Municipalisms) como um quadro te\u00f3rico e como uma vis\u00e3o pol\u00edtica para abordar tanto a crise do novo municipalismo, dadas as limita\u00e7\u00f5es que este acarreta, quanto a crise do cuidado, que se aprofunda sem interven\u00e7\u00f5es para coletivizar o cuidado como um recurso.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Municipalismos do Cuidado t\u00eam um duplo significado. O primeiro \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o do cuidado como um bem comum. Isto envolve devolver o cuidado \u00e0s comunidades e ao cerne das fun\u00e7\u00f5es municipais e <strong>descomodificar o cuidado<\/strong>, restaurando-o como uma responsabilidade coletiva e p\u00fablica, em vez de um fardo individual. Significa colocar o cuidado de volta nas m\u00e3os das comunidades e das estruturas de governan\u00e7a municipal para responder \u00e0 extra\u00e7\u00e3o estrutural das capacidades de cuidado. Em segundo lugar, \u00e9 uma agenda para adotar o cuidado como uma metodologia de governan\u00e7a, um princ\u00edpio orientador para a pr\u00f3pria governan\u00e7a, a fim de evitar modelos paternalistas e orientados pelo mercado de provis\u00e3o de cuidados e abra\u00e7ar abordagens feministas, coletivas e baseadas na solidariedade para a pol\u00edtica urbana.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas duas dimens\u00f5es s\u00e3o complementares. <strong>Reivindicar o cuidado como um bem comum<\/strong> aborda a extra\u00e7\u00e3o estrutural do trabalho e dos recursos de cuidado, enquanto o <strong>cuidado como metodologia de governan\u00e7a<\/strong> garante que as abordagens municipalistas evitem refor\u00e7ar modelos patriarcais e excludentes de provis\u00e3o de cuidado. Inspirado pelo <strong>conceito de \u201ccuidar com\u201d de Joan Tronto<\/strong>, os Municipalismos do Cuidado vislumbram uma abordagem democr\u00e1tica, coletiva e inclusiva para a governan\u00e7a do cuidado. Ao integrar o cuidado no cerne da pol\u00edtica urbana \u2014 n\u00e3o apenas como uma necessidade econ\u00f4mica, mas como um compromisso pol\u00edtico e \u00e9tico \u2014 o municipalismo pode oferecer um caminho transformador para mitigar ambas as crises.  <\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A <\/em><em>foto<\/em><em> na capa <\/em><em>e o post do blog s\u00e3o de <\/em><em>Deniz Ay, Universidade de Berna, Instituto de Geografia<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este trabalho est\u00e1 licenciado sob uma <a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-nd\/4.0\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Licen\u00e7a Creative Commons Atribui\u00e7\u00e3o-N\u00e3oComercial-SemDeriva\u00e7\u00f5es 4.0 Internacional<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Municipalismo do Cuidado (Care-full Municipalism) oferece uma vis\u00e3o te\u00f3rica 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