{"id":5989,"date":"2024-07-14T21:41:47","date_gmt":"2024-07-14T21:41:47","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/cuidar-de-nossos-territorios-economias-populares-cuidado-comunitario-e-auto-organizacao-na-colombia\/"},"modified":"2026-09-11T13:01:20","modified_gmt":"2026-09-11T13:01:20","slug":"cuidar-de-nossos-territorios-economias-populares-cuidado-comunitario-e-auto-organizacao-na-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/cuidar-de-nossos-territorios-economias-populares-cuidado-comunitario-e-auto-organizacao-na-colombia\/","title":{"rendered":"\u201cCuidar de nossos territ\u00f3rios\u201d \u2014 economias populares, cuidado comunit\u00e1rio e auto-organiza\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Economias populares e trabalho<\/strong><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As economias populares surgiram durante as \u00faltimas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina como agenciamentos de experi\u00eancias heterog\u00eaneas, subjetividades, formas de trabalho, pr\u00e1ticas auto-organizadas e estrat\u00e9gias para reprodu\u00e7\u00e3o da vida das classes populares, durante a reorganiza\u00e7\u00e3o capitalista neoliberal do trabalho e da expropria\u00e7\u00e3o. Esses marcos redefiniram as rela\u00e7\u00f5es entre pr\u00e1ticas de trabalho, cuidado e reprodu\u00e7\u00e3o da vida das classes populares e as formas de lutas pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m as formas de coopera\u00e7\u00e3o social e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, reivindica\u00e7\u00f5es e disputas. A pr\u00f3pria categoria de economia popular faz parte de intensas disputas te\u00f3ricas, epistemol\u00f3gicas e pol\u00edticas, nas academias, movimentos sociais e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para confrontar a expans\u00e3o contempor\u00e2nea da <em>vida sem sal\u00e1rio<\/em>, como sugere um texto inspirador de <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii66\/articles\/michael-denning-wageless-life\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Michel Denning<\/a>.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As estrat\u00e9gias populares contribu\u00edram, assim, para uma complexa reconfigura\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, da organiza\u00e7\u00e3o territorial e das formas de confronto e negocia\u00e7\u00e3o com o Estado; por outro lado, confrontam processos de extra\u00e7\u00e3o de valor da coopera\u00e7\u00e3o social e dos territ\u00f3rios, parte da expans\u00e3o das fronteiras da valoriza\u00e7\u00e3o capitalista e da apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, do tempo e do valor social. Podemos considerar estas <em>economias barrocas<\/em> \u2013 como <a href=\"https:\/\/www.radicalphilosophy.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/rp202_gago.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Veronica Gago<\/a> as chamou para indicar \u201co \u2018abigarramento\u2019 (<em>abigarramiento<\/em>) de tempos e l\u00f3gicas de opera\u00e7\u00f5es, da produ\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os saturados e de iniciativas plebeias\u201d (<a href=\"https:\/\/www.radicalphilosophy.com\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/rp202_gago.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gago, 2018<\/a>) \u2013 compostas por estruturas territoriais heterog\u00eaneas que emergiram das m\u00faltiplas crises geradas pelo neoliberalismo. Estas crises incluem diversas formas de viol\u00eancia territorial, din\u00e2micas de explora\u00e7\u00e3o e despossess\u00e3o desenvolvidas por diferentes atores no cen\u00e1rio das formas contempor\u00e2neas de acumula\u00e7\u00e3o capitalista baseadas na reconfigura\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o que Mezzadra e Neilson definiram como \u201cmultiplica\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em territ\u00f3rios e espa\u00e7os muito heterog\u00eaneos, as classes populares organizam e reproduzem sua vida por meio de combina\u00e7\u00f5es de diferentes atividades, trabalho, cuidado e diversos modos de \u201cfazer a vida valer a pena\u201d (Urban Popular Economy Collective, 2022). Em nome delas, formas heterog\u00eaneas e criativas de possibilitar pr\u00e1ticas de autogest\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o caracterizam organiza\u00e7\u00f5es e movimentos de base: atrav\u00e9s destas estrat\u00e9gias variadas e contradit\u00f3rias, eles lidam com a despossess\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o, o trabalho e as transforma\u00e7\u00f5es urbanas. Algumas delas produzem novas formas de comunalidade que desafiam a produ\u00e7\u00e3o neoliberal de subjetividade, abrindo a possibilidade para \u201cnovas formas de autonomia, produ\u00e7\u00e3o do comum e recomunaliza\u00e7\u00e3o de recursos e rela\u00e7\u00f5es\u201d (<a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/books\/book\/2433\/Designs-for-the-PluriverseRadical-Interdependence\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escobar, 2018<\/a>).  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Operando uma redefini\u00e7\u00e3o complexa das rela\u00e7\u00f5es com o Estado e outras institui\u00e7\u00f5es transnacionais e locais, as lutas populares na Am\u00e9rica Latina est\u00e3o contribuindo para disputar \u2013 e \u00e0s vezes modificar \u2013 as pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s classes populares em v\u00e1rios pa\u00edses e territ\u00f3rios. Ao mesmo tempo, abriram novas disputas a partir de perspectivas populares, ecol\u00f3gicas e feministas, sobre o valor do trabalho, do cuidado e da defesa dos territ\u00f3rios, combinando e reinventando diferentes perspectivas pol\u00edticas e ontol\u00f3gicas e constantemente confrontando m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia, deslocamento, explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o. Considerando as economias populares como um campo de batalha estendido onde \u00e9 poss\u00edvel investigar as formas que a coopera\u00e7\u00e3o social assume na acumula\u00e7\u00e3o capitalista atual dentro das m\u00faltiplas crises \u2013 crises sociais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas, clim\u00e1ticas e pand\u00eamicas \u2013 podemos investigar sua capacidade <em>instituinte<\/em> (Gago, 2014) \u2013 em termos de possibilidade de disputa social e pol\u00edtica e compreender as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contempor\u00e2neas.  <\/p>\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O contexto colombiano<\/strong><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo deste post \u00e9 uma breve apresenta\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es preliminares sobre a produtividade pol\u00edtica do cuidado comunit\u00e1rio e das economias populares no contexto colombiano, caracterizado por uma longa hist\u00f3ria de pol\u00edticas neoliberais e pela guerra interna hist\u00f3rica. As economias populares, ind\u00edgenas e comunit\u00e1rias em diferentes territ\u00f3rios colombianos est\u00e3o constantemente confrontando v\u00e1rias formas de viol\u00eancia e deslocamento, parte de uma disputa pela apropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios para acumula\u00e7\u00e3o capitalista, legal e ilegal, de riqueza.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O deslocamento est\u00e1 conectado \u00e0 expans\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o extrativista de capital \u2013 tanto legal quanto ilegal \u2013 como parte da fronteira de commodities ocupando territ\u00f3rios, garantida pela viol\u00eancia paramilitar apoiando a acumula\u00e7\u00e3o privada de territ\u00f3rios e os interesses de empres\u00e1rios transnacionais. Historicamente, a acumula\u00e7\u00e3o capitalista na Col\u00f4mbia combina diferentes formas de extrativismo, baseadas no agroneg\u00f3cio, latif\u00fandio, minera\u00e7\u00e3o de ouro ou outros combust\u00edveis f\u00f3sseis, com formas vari\u00e1veis de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e novos dispositivos de extrativismo financeiro (referindo-se \u00e0 proposta de Gago e Mezzadra de uma <a href=\"https:\/\/ctheory.sitehost.iu.edu\/img\/Gago&amp;Mezzadra&amp;_A_Critique-of-the-Extractive-Operations-of-Capital_Toward-an-expanded-concept-of-extractivism.pdf\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/ctheory.sitehost.iu.edu\/img\/Gago&amp;Mezzadra&amp;_A_Critique-of-the-Extractive-Operations-of-Capital_Toward-an-expanded-concept-of-extractivism.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">no\u00e7\u00e3o expandida de extrativismo<\/a>) \u2013 conectando diferentes economias, o endividamento popular aparece como um dispositivo que permite articular dinheiro de economias legais e ilegais. A implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas neoliberais desde os anos noventa \u2013 particularmente em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os p\u00fablicos \u2013 e as reconfigura\u00e7\u00f5es do conflito armado e da viol\u00eancia nos territ\u00f3rios \u2013 envolvendo guerrilhas, o Ex\u00e9rcito Colombiano, forma\u00e7\u00f5es paramilitares e as organiza\u00e7\u00f5es criminosas do narcotr\u00e1fico \u2013 contribu\u00edram para uma expans\u00e3o da pobreza e da desigualdade em todo o pa\u00eds.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os \u00faltimos anos, a Col\u00f4mbia viveu processos pol\u00edticos muito significativos: os Acordos de Paz em 2016 entre a guerrilha das FARC e o Estado, a revolta social em 2021 que mudou o cen\u00e1rio pol\u00edtico (<a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/south-atlantic-quarterly\/article-abstract\/121\/2\/398\/293852\/IntroductionSocial-and-Popular-Struggles-in?redirectedFrom=fulltext\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como Natalia Hernandez e eu analisamos em um dossi\u00ea coletivo para South Atlantic Quarterly<\/a>); e finalmente, as elei\u00e7\u00f5es de Gustavo Petro e Francia Marquez em 2022 (o primeiro presidente de esquerda na hist\u00f3ria colombiana). Confrontando expropria\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia nos territ\u00f3rios, em um pa\u00eds onde os trabalhadores informais representam 56 % (DANE &#8211; Instituto Nacional de Estat\u00edsticas), as lutas sociais, lideran\u00e7as comunit\u00e1rias e processos em defesa dos territ\u00f3rios reconfiguraram profundamente o senso comum e as disputas e conflitos pol\u00edticos e sociais, combinando formas cotidianas de ativismo pol\u00edtico com marcos de cuidado e comunit\u00e1rios. <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O chamado <em>estallido social<\/em> (levante social) abriu importantes processos de politiza\u00e7\u00e3o, subjetiva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social na Col\u00f4mbia (<a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/south-atlantic-quarterly\/article-abstract\/121\/2\/398\/293852\/IntroductionSocial-and-Popular-Struggles-in?redirectedFrom=fulltext\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/south-atlantic-quarterly\/article-abstract\/121\/2\/398\/293852\/IntroductionSocial-and-Popular-Struggles-in?redirectedFrom=fulltext\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Castronovo, Hernandez, 2021<\/a>). Como <a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/south-atlantic-quarterly\/article-abstract\/121\/2\/417\/293855\/The-Strike-in-ColombiaAccumulation-and-Democracy\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">argumenta Cortes (2022)<\/a>, \u201cAs mobiliza\u00e7\u00f5es mostraram que a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da sociedade est\u00e1 por um fio, enquanto uma minoria acumula grandes privil\u00e9gios, enquanto outros mal t\u00eam o suficiente para sobreviver. [&#8230;] Mais de 21 milh\u00f5es de pessoas vivem na pobreza e 7,3 milh\u00f5es vivem em condi\u00e7\u00f5es de pobreza extrema; a propriedade da terra est\u00e1 concentrada nas m\u00e3os de pouqu\u00edssimos propriet\u00e1rios: 0,9% da popula\u00e7\u00e3o acumula 40% das terras; o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante nenhum tipo de mobilidade social\u201d. <\/p>\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"577\" src=\"https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--1024x577.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3629\" srcset=\"https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--1024x577.jpg 1024w, https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--300x169.jpg 300w, https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--768x432.jpg 768w, https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--1536x865.jpg 1536w, https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/huerta-comunitaria--2048x1153.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201cCuidar de nossos territ\u00f3rios\u201d: hip\u00f3teses e perguntas preliminares <\/strong><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da minha pesquisa em andamento sobre a produtividade pol\u00edtica da auto-organiza\u00e7\u00e3o nas economias populares e a disputa por uma transforma\u00e7\u00e3o social na Col\u00f4mbia, compartilharei algumas perguntas e reflex\u00f5es preliminares sobre as rela\u00e7\u00f5es entre pr\u00e1ticas sociais populares, territ\u00f3rios de cuidado e transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Durante reuni\u00f5es, entrevistas, conversas em diferentes territ\u00f3rios, experi\u00eancias e contextos, retorna constantemente, nos discursos de l\u00edderes sociais e ativistas, a frase \u201cestamos cuidando de nossos territ\u00f3rios\u201d, referindo-se a uma constela\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sociais relacionadas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de sua vida. Estas pr\u00e1ticas fazem parte de uma concep\u00e7\u00e3o ampliada de territ\u00f3rios e trabalho, incluindo m\u00faltiplas dimens\u00f5es do viver e conectando-se com diversas ontologias que coexistem e cooperam na reprodu\u00e7\u00e3o da vida e na defesa dos territ\u00f3rios. Assim, poder\u00edamos investigar: que tipo de estruturas populares est\u00e3o configurando esses processos? Esses arranjos de pr\u00e1ticas e subjetividades reconfiguram conflitos pol\u00edticos, sociais e culturais?    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A multiplica\u00e7\u00e3o de hortas comunit\u00e1rias urbanas, os mercados auto-organizados de vendedores de economia popular e a luta ind\u00edgena em defesa dos territ\u00f3rios, representam exemplos espec\u00edficos e significativos desses agenciamentos que constituem um campo de batalha emergente para a vida coletiva urbana. Levando em conta experi\u00eancias heterog\u00eaneas, farei refer\u00eancia a tr\u00eas exemplos diferentes que nos permitem investigar esses processos a partir da perspectiva do cuidado, da comunidade e das economias populares.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro, na \u00e1rea metropolitana de Bogot\u00e1, as hortas comunit\u00e1rias est\u00e3o se expandindo em v\u00e1rios bairros, combinando diferentes tradi\u00e7\u00f5es, patrim\u00f4nio cultural, modos de usar o espa\u00e7o, reinventando a economia e tradi\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas no espa\u00e7o urbano, marcos comunit\u00e1rios e formas de cuidado. Experi\u00eancias recentes est\u00e3o conectando hortas tanto com economias populares, mercados e infraestruturas, quanto com cozinhas comunit\u00e1rias \u2013 <em>ollas populares<\/em> \u2013 que durante a revolta social e a crise pand\u00eamica representaram infraestruturas sociais muito importantes para a reprodu\u00e7\u00e3o das classes populares. Elas tamb\u00e9m contribuem para novas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica envolvendo jovens em bairros populares, lidando com a crise ecol\u00f3gica e pand\u00eamica, usando, ocupando espa\u00e7os ou viabilizando a reconfigura\u00e7\u00e3o social de \u00e1reas urbanas abandonadas confrontando especula\u00e7\u00f5es e urbaniza\u00e7\u00e3o neoliberal.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, os mercados de economia popular, no distrito de Suba, situado na zona norte da capital Bogot\u00e1, no bairro de Lisboa, e em outros, representam uma estrutura comunit\u00e1ria central para a reprodu\u00e7\u00e3o da vida e uma infraestrutura popular espec\u00edfica. Centenas de vendedores, mulheres e homens, cuidam do territ\u00f3rio habitando este espa\u00e7o urbano para trabalhar, mas tamb\u00e9m cuidar \u2014 de crian\u00e7as, de pessoas necessitadas, do bairro, do territ\u00f3rio \u2014 e oferecer seguran\u00e7a \u2014 porque o espa\u00e7o nunca est\u00e1 vazio, sempre habitado \u2014 e servi\u00e7os, durante todo o dia e a noite. Como emerge de diversas pesquisas etnogr\u00e1ficas, os trabalhadores das economias populares, ao habitarem os espa\u00e7os, cuidam desses territ\u00f3rios. Reproduzir sua vida, cuidar de outras pessoas, torna poss\u00edvel um conceito popular de seguran\u00e7a \u2014 n\u00e3o baseado na pol\u00edcia, mas na comunidade \u2014 enquanto trabalham oferecendo servi\u00e7os baratos \u2014 como comida, caf\u00e9 e outros itens. Neste caso, suas formas de organizar o trabalho \u2014 e sua ag\u00eancia \u2014 \u201ccuidar de nossos territ\u00f3rios\u201d \u2014 possibilitam a viv\u00eancia em um local seguro dia e noite, e contribuem para a vida coletiva no bairro (<a href=\"https:\/\/biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar\/bitstream\/CLACSO\/248847\/1\/Economias-populares.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bernal, Giraldo, Ramirez, 2023 <\/a>\u2014 publicado no <a href=\"https:\/\/www.mapeoecopop.com\/post\/econom%C3%ADas-populares-una-cartograf%C3%ADa-cr%C3%ADtica-latinoamericana\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">livro coletivo do GT CLACSO<\/a>).    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mesmo distrito, o Cabildo Muisca \u2014 o primeiro <em>cabildo<\/em> urbano na Col\u00f4mbia \u2014 experimentou durante os \u00faltimos anos uma <em>Guardia Indigena<\/em> (Guarda Ind\u00edgena) auto-organizada no distrito de Suba, a fim de cuidar de seu territ\u00f3rio ancestral sob uma perspectiva cultural, comunit\u00e1ria e ecol\u00f3gica. Eles come\u00e7aram a se organizar dessa forma durante a greve nacional e o levante, influenciados por outras organiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de autodefesa ind\u00edgena, redefiniram e ampliaram suas formas de organiza\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas de cuidado comunit\u00e1rio durante a crise da pandemia. Eles foram inspirados pela centralidade de experi\u00eancias como a Guarda Ind\u00edgena, Cimarrona e Camponesa, e a Primeira Linha nas cidades e nos pontos de resist\u00eancia durante a Greve Nacional e o levante social. Todas essas experi\u00eancias constituem exerc\u00edcios de territorial control, espa\u00e7os de auto-organiza\u00e7\u00e3o, autodefesa, formas de cuidar dos territ\u00f3rios, atrav\u00e9s da ag\u00eancia coletiva, educa\u00e7\u00e3o popular, pedagogia democr\u00e1tica e articula\u00e7\u00e3o de diferentes subjetividades, assembleias territoriais em defesa da vida e do direito ao protesto. Atualmente, na \u00e1rea urbana onde vivem, est\u00e3o combinando novas formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva entre a comunidade ind\u00edgena e criando redes com estudantes, movimentos feministas e ecol\u00f3gicos. Est\u00e3o envolvidos em lutas sociais e processos de defesa de territ\u00f3rios \u2014 especialmente lutas ecol\u00f3gicas \u2014 contra projetos de infraestrutura municipal \u2014 e recuperando territ\u00f3rios, abandonados ou destinados \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, para atividades sociais, hortas produtivas e cuidado ecol\u00f3gico. Estes exemplos nos permitem abrir a pesquisa sobre a hip\u00f3tese preliminar: \u201ccuidar de nossos territ\u00f3rios\u201d, emergindo da combina\u00e7\u00e3o de auto-organiza\u00e7\u00e3o, cuidado comunit\u00e1rio e pr\u00e1ticas de economias populares, possibilita novos campos complexos de disputas pol\u00edticas.       <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas formas de ag\u00eancia \u2014 \u201ccuidar de nossos territ\u00f3rios\u201d \u2014 disputam transforma\u00e7\u00f5es sociais e ecol\u00f3gicas, ao conectar estruturas e lutas, e ao reconfigurar a produ\u00e7\u00e3o coletiva de infraestrutura e servi\u00e7os, baseada na auto-organiza\u00e7\u00e3o, que torna poss\u00edvel a reprodu\u00e7\u00e3o da vida para as maiorias urbanas na crise contempor\u00e2nea. Seguem-se algumas quest\u00f5es mais amplas sobre horizontes sociais e pol\u00edticos de transforma\u00e7\u00e3o \u2014 que inspiram minha pesquisa: as estrat\u00e9gias coletivas de economias ind\u00edgenas, populares e comunais empoderam formas de autonomia social e pol\u00edtica? Que tipo de reconfigura\u00e7\u00f5es poss\u00edveis das rela\u00e7\u00f5es entre comunidade e Estado est\u00e3o surgindo? Estas experi\u00eancias e pr\u00e1ticas s\u00e3o capazes de criar novas formas de institucionalidade, em resson\u00e2ncia com o processo pol\u00edtico contempor\u00e2neo na Col\u00f4mbia?   <\/p>\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O autor \u00e9 pesquisador de p\u00f3s-doutorado na Universidade de P\u00e1dua, It\u00e1lia, PI do projeto STARS Starting Grants sobre economias populares na Col\u00f4mbia; membro do Conselho Consultivo Internacional de Revaluing Care in the Global Economy; membro do GT CLACSO<\/em> &#8220;<em>Econom\u00edas populares<\/em>: <em>mapeo te\u00f3rico y pr\u00e1ctico<\/em>&#8220;<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Imagem de capa do autor, licenciada sob Creative Commons <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O objetivo deste post \u00e9 apresentar algumas reflex\u00f5es preliminares sobre a produtividade pol\u00edtica do cuidado comunit\u00e1rio e das economias populares no contexto colombiano. Introduzindo debates em torno da economia popular, farei refer\u00eancia a tr\u00eas experi\u00eancias concretas e formularei algumas perguntas e hip\u00f3teses sobre a possibilidade de disputas pol\u00edticas por marcos de economia popular no cen\u00e1rio contempor\u00e2neo. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5990,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_relevanssi_hide_post":"","_relevanssi_hide_content":"","_relevanssi_pin_for_all":"","_relevanssi_pin_keywords":"","_relevanssi_unpin_keywords":"","_relevanssi_related_keywords":"","_relevanssi_related_include_ids":"","_relevanssi_related_exclude_ids":"","_relevanssi_related_no_append":"","_relevanssi_related_not_related":"","_relevanssi_related_posts":"","_relevanssi_noindex_reason":"","_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[395],"tags":[362,357,339],"authors":[539],"class_list":["post-5989","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog-de-documentos-de-trabalho","tag-cuidado-ecologico","tag-praticas-sociais","tag-trabalho","authors-alioscia-castronovo"],"acf":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular.jpg",1500,845,false],"thumbnail":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-300x169.jpg",300,169,true],"medium_large":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-768x433.jpg",768,433,true],"large":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-1024x577.jpg",1024,577,true],"1536x1536":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular.jpg",1500,845,false],"2048x2048":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular.jpg",1500,845,false],"featured-card":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-900x450.jpg",900,450,true],"card":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-500x280.jpg",500,280,true],"profile":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/feria-economia-popular-160x160.jpg",160,160,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"rcge-admin","author_link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/author\/rcge-admin\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O objetivo deste post \u00e9 apresentar algumas reflex\u00f5es preliminares sobre a produtividade pol\u00edtica do cuidado comunit\u00e1rio e das economias populares no contexto colombiano. 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