{"id":5979,"date":"2024-04-04T17:20:20","date_gmt":"2024-04-04T17:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/desigualdades-raciais-em-saude-no-brasil-e-nos-estados-unidos-ao-longo-da-historia\/"},"modified":"2026-09-11T13:01:20","modified_gmt":"2026-09-11T13:01:20","slug":"desigualdades-raciais-em-saude-no-brasil-e-nos-estados-unidos-ao-longo-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/desigualdades-raciais-em-saude-no-brasil-e-nos-estados-unidos-ao-longo-da-historia\/","title":{"rendered":"Desigualdades raciais em sa\u00fade no Brasil e nos Estados Unidos ao longo da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda metade do s\u00e9culo XIX, o Brasil foi assolado por diversas doen\u00e7as contagiosas. Var\u00edola, febre amarela e tuberculose s\u00e3o apenas alguns exemplos. Elas se espalhavam nos centros urbanos, onde as condi\u00e7\u00f5es de moradia, o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade eram prec\u00e1rios. Era um pa\u00eds doente (SCHWARTZ, 1993), e era necess\u00e1rio pessoal t\u00e9cnico especializado para sanear a na\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, o conhecimento m\u00e9dico passou a ser reconhecido por institui\u00e7\u00f5es oficiais; estamos falando das primeiras faculdades de medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro. Nesses centros, o curr\u00edculo come\u00e7ou a ser estruturado com base em evid\u00eancias cl\u00ednicas, e o pensamento m\u00e9dico-cient\u00edfico floresceu em peri\u00f3dicos especializados. Esse cen\u00e1rio foi acompanhado pelo surgimento dos \u201cm\u00e9dicos higienistas\u201d: figuras atuantes na cena pol\u00edtica que, por vezes com autoritarismo e viol\u00eancia, projetavam sua influ\u00eancia em diretrizes sanit\u00e1rias e no planejamento urbano.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O surgimento do pessoal t\u00e9cnico especializado esteve associado a grandes mudan\u00e7as na epistemologia m\u00e9dica. Em oposi\u00e7\u00e3o ao paradigma ambiental, que concentrava sua explica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a na exposi\u00e7\u00e3o a m\u00faltiplos fatores externos, a teoria pasteuriana prop\u00f4s uma etiologia \u00fanica para as doen\u00e7as infectocontagiosas: a contamina\u00e7\u00e3o por microrganismos. No entanto, a supera\u00e7\u00e3o do paradigma ambiental pela l\u00f3gica pasteuriana ocorreu por meio de uma transi\u00e7\u00e3o gradual e debatida. Parte desse processo se deve \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica e social das medidas sanit\u00e1rias, que mobilizavam recursos operados por essas duas epistemologias para interpretar os males vividos nos centros urbanos.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analistas do per\u00edodo discutem em que medida a concep\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as humanas influenciou essa transi\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica. Uma hip\u00f3tese (CHALHOUB, 1996) prop\u00f5e que os especialistas reconheceram a suscetibilidade de algumas ra\u00e7as humanas a determinados pat\u00f3genos e orientaram suas a\u00e7\u00f5es com base nesse paradigma. Pessoas negras teriam sido expostas a certas doen\u00e7as tropicais na \u00c1frica, o que lhes conferiria alguma imunidade, em compara\u00e7\u00e3o com brancos europeus, expostos a esses pat\u00f3genos pela primeira vez no Brasil. Essa epistemologia resultaria em pol\u00edticas de sa\u00fade racializadas e seletivas, voltadas a a\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias para determinadas doen\u00e7as e territ\u00f3rios.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, h\u00e1 diverg\u00eancias quanto \u00e0 suposta racializa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de sa\u00fade na virada do s\u00e9culo. Maio (2010) argumenta que a influ\u00eancia dos especialistas na condu\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica sanit\u00e1ria centralizada e autorit\u00e1ria foi bastante limitada pelo baixo or\u00e7amento. Ele vai al\u00e9m e indica que atribuir um paradigma racialista \u00e0 medicina do per\u00edodo significa transpor l\u00f3gicas operadas em outros pa\u00edses para a realidade brasileira; notadamente, a desenvolvida nos EUA. Ambos os autores concordam, por\u00e9m, que houve uma combina\u00e7\u00e3o particular entre distintas epistemologias m\u00e9dicas, o que caracterizaria uma medicina tropical \u00fanica e original nascendo no pa\u00eds.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para testar essa afirma\u00e7\u00e3o, nossa pesquisa recorreu aos arquivos m\u00e9dicos do per\u00edodo para avaliar: (a) a suposta originalidade da teoria sanit\u00e1ria nacional e (b) eventuais di\u00e1logos entre escritos brasileiros e americanos. Nossa pesquisa utilizou uma t\u00e9cnica chamada Reconhecimento \u00d3ptico de Caracteres (OCR) para buscar a palavra-chave \u201cra\u00e7a\u201d. Os resultados mostram que o programa intelectual de sa\u00fade da \u00e9poca se caracterizava n\u00e3o pela originalidade, mas, sim, por uma ambiguidade quanto \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e contamina\u00e7\u00e3o.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos EUA, ap\u00f3s a Guerra Civil, o racismo \u201ccient\u00edfico\u201d dedicou-se a categorizar e projetar a popula\u00e7\u00e3o de acordo com sua ra\u00e7a. Essas teses encontraram eco na contagem populacional e em estudos de sa\u00fade, j\u00e1 que estes ofereciam uma base de dados emp\u00edrica para testar teorias de superioridade racial. Al\u00e9m disso, as contagens populacionais t\u00eam implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diretas, pois a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se baseia nelas desde a Constitui\u00e7\u00e3o americana. Dados censit\u00e1rios e estat\u00edsticas vitais, a principal inova\u00e7\u00e3o do per\u00edodo, foram usados para testar a hip\u00f3tese de que as popula\u00e7\u00f5es negra e ind\u00edgena estavam em decl\u00ednio e prever sua prov\u00e1vel data de extin\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa hip\u00f3tese se baseava na suposta predisposi\u00e7\u00e3o de grupos raciais a certas doen\u00e7as, como a tuberculose. Um debate realizado em 1887 entre Washington Matthews, cirurgi\u00e3o do Ex\u00e9rcito dos EUA, e Thomas Mays, m\u00e9dico da Filad\u00e9lfia, \u00e9 ilustrativo de como essa quest\u00e3o foi abordada. Os especialistas discutiram se os fatores ambientais do contato com a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d eram prejudiciais ou ben\u00e9ficos para a preval\u00eancia da tuberculose entre povos ind\u00edgenas. Nesse momento, o bacilo de Koch, causador da tuberculose, j\u00e1 havia sido isolado e descrito (desde 1882); mas, como podemos ver, a transi\u00e7\u00e3o entre a teoria ambiental e a l\u00f3gica microbiana tamb\u00e9m foi gradual ali, e houve igualmente intera\u00e7\u00e3o com a l\u00f3gica das ra\u00e7as humanas.   <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, por outro lado, a entrada da quest\u00e3o racial na sa\u00fade p\u00fablica parece desempenhar um papel secund\u00e1rio, j\u00e1 que os principais surtos epid\u00eamicos nos centros urbanos come\u00e7aram a ser controlados na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX por meio de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de desinfec\u00e7\u00e3o. A vari\u00e1vel ra\u00e7a voltou \u00e0 cena a partir da d\u00e9cada de 1920, em estudos cl\u00ednicos realizados com base em registros administrativos, mas mantendo o padr\u00e3o de lateralidade observado anteriormente. Naquele momento, o paradigma eugenista j\u00e1 dominava o campo m\u00e9dico, o que contribuiu para conferir alguma evid\u00eancia \u00e0 vari\u00e1vel ra\u00e7a.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s analisar semelhan\u00e7as e dist\u00e2ncias entre as duas escolas, podemos afirmar que a chamada originalidade da teoria sanit\u00e1ria brasileira tem pouco respaldo. Ambas se apoiaram em arranjos entre a teoria ambiental, a l\u00f3gica pasteuriana e a no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as humanas. De uma perspectiva comparativa, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resguardar o caso brasileiro como original, embora a escala de ades\u00e3o a tais arranjos entre especialistas dos EUA n\u00e3o possa ser testada. A principal diferen\u00e7a parece ser a import\u00e2ncia atribu\u00edda \u00e0 vari\u00e1vel ra\u00e7a: de um componente e elemento explorat\u00f3rio no caso brasileiro, a explicativa e determinante no caso americano. No entanto, parece haver um pano de fundo comum a ambas as teorias: uma concep\u00e7\u00e3o moralista, que atribui os infort\u00fanios e as doen\u00e7as enfrentados pela popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o \u201cnaturalmente\u201d inferior, a partir de uma perspectiva civilizat\u00f3ria centrada na branquitude como dom\u00ednio do corpo saud\u00e1vel.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fonte da imagem: <a href=\"https:\/\/www.obrasraras.fiocruz.br\/gallery.php?mode=gallery&amp;id=10&amp;page=1\">obras raras<\/a><\/em>. <em>Licenciado sob Creative Commons<\/em><\/p>\n\n<div style=\"height:39px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHALHOUB, S. Cidade febril: corti\u00e7os e epidemias na corte imperial. S\u00e3o Paulo: Compania das letras, 1996. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HAMMONDS, E.; HERZIG, M. R. The natural diference: science and race in the USA from Jefferson to Genomics. Cambridge : MIT press, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MAIO, M. C. Ra\u00e7a, doen\u00e7a e saude p\u00fablica no Brasil: um debate sobre o pensamento higienista do s\u00e9culo XIX. Rio de janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, 2010. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCHWARCZ, L. M. O espet\u00e1culo das ra\u00e7as: ci\u00eantistas, institu\u00e7\u00f5es e quest\u00e3o racial no Brasil (1870-1930). S\u00e3o Paulo: Compania das Letras, 1993. <\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00fade, doen\u00e7a e ra\u00e7a interagiram de maneira muito particular no pensamento m\u00e9dico do Brasil e dos Estados Unidos na virada do s\u00e9culo XIX para o XX. 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