{"id":5915,"date":"2024-01-18T12:38:05","date_gmt":"2024-01-18T12:38:05","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/alem-do-abandono-envelhecimento-queer-e-cuidado-comunitario\/"},"modified":"2026-09-11T13:01:06","modified_gmt":"2026-09-11T13:01:06","slug":"alem-do-abandono-envelhecimento-queer-e-cuidado-comunitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/alem-do-abandono-envelhecimento-queer-e-cuidado-comunitario\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m do Abandono: Envelhecimento Queer e Cuidado Comunit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser queer <em>e <\/em>ser velho<em>\u2013\u2013<\/em>tal permuta\u00e7\u00e3o parece imposs\u00edvel diante das realidades da vida, especialmente para pessoas queer. Isso \u00e9 particularmente verdadeiro quando narrativas usuais do Norte Global sobre a vida queer aludem a uma gera\u00e7\u00e3o perdida de pessoas queer devido \u00e0 epidemia de HIV\/AIDS que devastou a comunidade nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. Al\u00e9m disso, permanece o fato de que pessoas queer ainda sofrem forte discrimina\u00e7\u00e3o e est\u00e3o expostas \u00e0 viol\u00eancia em taxas muito elevadas, a ponto de <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/sciadv.aba6910?fbclid=IwAR01oLZW1XfpYlZIif_XRxOTzgBjmddp6ML9zTl6URfqFYCw6vL88CwguHc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pessoas LGBT terem quase quatro vezes mais probabilidade de serem v\u00edtimas de um crime violento<\/a> do que indiv\u00edduos n\u00e3o LGBT, ao menos nos Estados Unidos.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deslocando nosso olhar dos Estados Unidos para as Filipinas, este cap\u00edtulo de disserta\u00e7\u00e3o em andamento examina o envelhecimento queer no Sul Global, perguntando como se configura o cuidado para uma popula\u00e7\u00e3o que \u00e9, ao mesmo tempo, desassistida pelo Estado e est\u00e1 fora dos limites da estrutura familiar heteronormativa\u2013\u2013duas institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido vistas como as fontes de cuidado para pessoas idosas. Este trabalho reflete sobre essas quest\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 principal preocupa\u00e7\u00e3o da minha disserta\u00e7\u00e3o: se filipinos migram para atuar como cuidadores e como solu\u00e7\u00e3o para a crise global do cuidado, ent\u00e3o quem cuida de quem fica para tr\u00e1s? Como as Filipinas est\u00e3o lidando com sua pr\u00f3pria crise do cuidado em casa?  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Armada com seu guarda-chuva rosa, que tamb\u00e9m serve como bengala, junto com seus itens de beleza, Dory Hernandez se destaca em seu vestido rosa-choque, uma fonte de cor e luz em meio \u00e0 escurid\u00e3o do concreto usado como material para as casas das pessoas em um beco escuro. Saber que Dory \u00e9 uma cabeleireira\/esteticista, um of\u00edcio associado a pessoas queer nas Filipinas, definitivamente n\u00e3o \u00e9 surpreendente. O que pretende chocar o espectador, por\u00e9m, e o gancho deste document\u00e1rio, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hqZjWyHRRoE\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Dory<\/em><\/a>, \u00e9 o fato de que Hernandez \u00e9, na verdade, uma mulher trans de 101 anos que \u201csobreviveu a mais de um s\u00e9culo de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero\u201d <a href=\"https:\/\/www.rappler.com\/video\/act-one\/dory-short-film-transgender-woman\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.rappler.com\/video\/act-one\/dory-short-film-transgender-woman\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">vivendo sua vida nas ruas de Tondo, Manila, nas Filipinas<\/a>.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora o document\u00e1rio nos condicione a ver Dory com pena, como uma figura solit\u00e1ria no crep\u00fasculo de sua vida, sozinha e for\u00e7ada a trabalhar por causa de suas circunst\u00e2ncias, o que tamb\u00e9m vemos \u00e9 seu enraizamento em sua comunidade. Aqueles que recorrem aos seus servi\u00e7os e aqueles que a ajudam diariamente n\u00e3o s\u00e3o do governo nem de sua fam\u00edlia, mas pessoas de sua comunidade. Eles t\u00eam o cabelo arrumado e tingido por Dory h\u00e1 d\u00e9cadas, e essas mem\u00f3rias alimentam seu desejo de ajudar Dory na velhice, em seu suposto abandono. Em sua comunidade, a transgeneridade de Dory nunca \u00e9 questionada\u2013\u2013h\u00e1 uma banalidade em seu existir, um conforto em compara\u00e7\u00e3o com outras not\u00edcias sobre mortes de pessoas trans que vieram das Filipinas, como o <a href=\"https:\/\/www.callherganda.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">assassinato de Jennifer Laude<\/a>, uma mulher trans morta por um militar americano. Embora ela seja descrita como algu\u00e9m que sobreviveu a um s\u00e9culo de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, em sua comunidade, Dory pode simplesmente ser Dory. N\u00e3o \u00e9 sua transgeneridade a raz\u00e3o da pobreza ou do isolamento de Dory; h\u00e1 uma comunidade que cuida dela. O enraizamento de Dory nesse lugar ao longo de toda a sua vida estruturou as rela\u00e7\u00f5es que ela construiu em sua casa e em sua comunidade. Essas mesmas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o o que mant\u00e9m Dory seguindo em frente, vivendo e sobrevivendo por mais um dia.        <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio da pandemia de COVID-19, o Care Collective, em seu livro <em>The Care Manifesto<\/em>, argumentou que h\u00e1 uma banalidade do descaso em nosso mundo\u2013\u2013uma condi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 foi agravada pela pandemia. Isso, por\u00e9m, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 algo novo, especialmente para um povo que tem sido visto como a resposta para o descaso em nosso mundo. Para alguns, \u00e9, na verdade, uma banalidade do cuidado que molda o cotidiano, especialmente quando essa falta de cuidado nunca \u00e9 resolvida. Filipinos s\u00e3o racializados e exportados globalmente como aqueles que cuidam, movidos pelo desejo de enviar remessas porque cuidam de seus entes queridos, ao mesmo tempo em que enfrentam seus pr\u00f3prios problemas em torno do mesmo problema que deveriam resolver. Essas quest\u00f5es em torno do cuidado se ampliam especialmente para pessoas idosas queer e trans que n\u00e3o t\u00eam a quem recorrer.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, ao deslocarmos nosso olhar para al\u00e9m do abandono e focarmos os aspectos comunit\u00e1rios do cuidado que est\u00e3o presentes, tamb\u00e9m somos apresentados a outras formas de interdepend\u00eancia que permitiram que comunidades florescessem apesar dessa car\u00eancia e da crise do cuidado. Estar em comunidade e construir rela\u00e7\u00f5es com quem est\u00e1 ao seu redor mostra que o lugar importa e que \u00e9 por meio de estarmos em rela\u00e7\u00e3o uns com os outros que conseguimos viver vidas melhores e mais plenas. <\/p>\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A imagem de capa foi feita pela autora. Licenciada sob Creative Commons  <\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n<div style=\"height:48px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser queer e ser velho\u2013\u2013tal permuta\u00e7\u00e3o parece imposs\u00edvel diante das realidades da vida, especialmente para pessoas queer. 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