{"id":5509,"date":"2025-01-31T23:40:05","date_gmt":"2025-01-31T23:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/revcaredev.wpenginepowered.com\/destruicao-como-cuidado\/"},"modified":"2026-09-10T19:57:05","modified_gmt":"2026-09-10T19:57:05","slug":"destruicao-como-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/destruicao-como-cuidado\/","title":{"rendered":"Destrui\u00e7\u00e3o como Cuidado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma como estamos enredados em teias de vida, junto com fungos, animais, insetos, plantas, \u00e1rvores e outras formas de vida, exige cuidado m\u00fatuo e reciprocidade. Atos de cuidado t\u00eam sido entendidos como reprodu\u00e7\u00e3o da vida; reprodu\u00e7\u00e3o de \u201cnosso mundo\u201d para que todos possamos viver nele da melhor maneira poss\u00edvel. Neste breve post de blog, apresentamos nosso trabalho, no qual consideramos atos de destrui\u00e7\u00e3o para nuan\u00e7ar e enriquecer tais proposi\u00e7\u00f5es no campo do cuidado mais-que-humano. Fazemos as seguintes perguntas: Como atos de destrui\u00e7\u00e3o, de matar \u00e1rvores, podem ser considerados cuidado? Qual vida est\u00e1 sendo reproduzida e por qu\u00ea? Que relacionalidades mais-que-humanas sustentam tais interven\u00e7\u00f5es e como elas diferem de outras pr\u00e1ticas de gest\u00e3o da terra?      <\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 Cuidado?<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que lhe vem \u00e0 mente quando voc\u00ea ouve a palavra \u201ccuidado\u201d? Talvez uma m\u00e3e alimentando seu filho, ou trabalhadores em casas de repouso, ou talvez o chamado trabalho realizado pelas \u00e1rvores, que capturam di\u00f3xido de carbono e, de forma eficaz, resfriam o planeta que chamamos de nosso lar compartilhado. O cuidado \u00e9 um pilar da sobreviv\u00eancia coletiva e, como outros estudiosos t\u00eam mostrado de forma eficaz e cr\u00edtica, o trabalho de cuidado muitas vezes n\u00e3o \u00e9 reconhecido. A escritora sueca Katrine Mar\u00e7al, por exemplo, intitulou com eloqu\u00eancia seu livro publicado em 2012 \u201cWho cooked Adam Smith\u2019s dinner?\u201d para se referir ao (trabalho de) cuidado realizado por mulheres que frequentemente \u00e9 ignorado pelo pensamento econ\u00f4mico dominante.    <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento para reconhecer o trabalho de cuidado ganhou impulso significativo com a cria\u00e7\u00e3o de iniciativas dedicadas \u00e0 renda b\u00e1sica, ao reconhecimento do trabalho dom\u00e9stico como trabalho remunerado, ao reconhecimento art\u00edstico de trabalhadores do cuidado, como pessoas que atuam na coleta de lixo ou na limpeza de espa\u00e7os p\u00fablicos, e, mais recentemente, com organiza\u00e7\u00f5es reconhecendo o cuidado realizado pela natureza, como a OMS chamando aten\u00e7\u00e3o para o valor da natureza para a sa\u00fade individual e social. Relevante para essa \u00faltima no\u00e7\u00e3o de cuidado, a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre cuidado mais-que-humano considera o bem-estar humano como entrela\u00e7ado ao bem-estar dos ecossistemas, sendo que o termo \u201cmais-que-humano\u201d descentraliza o humano para considerar todos os seres como inter-relacionados e interdependentes.  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho sobre o cuidado (mais-que-humano), reconhecido ou n\u00e3o, tem tendido a se ocupar de atos de cria\u00e7\u00e3o, atos que \u201ccontribuem\u201d, atos que mant\u00eam; atos que nos permitem continuar participando da dan\u00e7a compartilhada da interdepend\u00eancia em um planeta avariado. Com pesquisas recentes defendendo a necessidade de reconhecer o trabalho de cuidado realizado por entidades outras-que-humanas, mas permanecendo no \u00e2mbito do cuidado m\u00fatuo e da reciprocidade. Neste breve post de blog, enriquecemos esse pensamento ao considerar os improv\u00e1veis atos de destrui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e exclus\u00e3o dentro de comunidades mais-que-humanas como atos de cuidado.   <\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As <em>Brigadas Deseucaliptizadoras <\/em>e seus Atos de Destrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <em>Brigadas Deseucaliptizadoras <\/em>s\u00e3o um movimento de base que come\u00e7ou em 2017, ap\u00f3s mais uma onda de inc\u00eandios mortais varrer a Gal\u00edcia, uma regi\u00e3o no noroeste da Espanha. Suas interven\u00e7\u00f5es nas paisagens galegas consistem na remo\u00e7\u00e3o de eucaliptos e ac\u00e1cias, em trabalho conjunto com comunidades locais. Atualmente, mais de 1.500 pessoas est\u00e3o inscritas nas <em>Brigadas <\/em>e, algumas vezes por m\u00eas, o grupo realiza atos de destrui\u00e7\u00e3o em diferentes locais da Gal\u00edcia. As interven\u00e7\u00f5es consistem em uma manh\u00e3 de trabalho, na qual motosserras e serras manuais s\u00e3o usadas para derrubar \u00e1rvores, exemplares mais jovens s\u00e3o arrancados do solo, a rebrota \u00e9 cortada com um pequeno machado, ou a casca das \u00e1rvores \u00e9 cortada e depois retirada para permitir a entrada de fungos e, assim, matar a \u00e1rvore de forma eficaz. Depois que o trabalho termina, s\u00e3o organizados um almo\u00e7o comunit\u00e1rio e uma atividade \u00e0 tarde.     <\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Constru\u00e7\u00e3o da Comunidade Mais-Que-Humana nas terras comunais galegas<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como esses atos de destrui\u00e7\u00e3o podem ser considerados atos de cuidado? Como atos que reproduzem \u201cnosso mundo\u201d, como enfatizou o trabalho original de Joan Tronto e Berenice Fischer sobre cuidado, e qual mundo esses atos estariam reproduzindo?  <\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para abordar essas quest\u00f5es, recorremos \u00e0 teoria dos imagin\u00e1rios sociot\u00e9cnicos, conforme desenvolvida por Jasanoff e Kim (2009, 2015). Essa teoria nos ajuda a entender como ideias de \u201cbom conhecimento\u201d e de ordem social evoluem ao longo do tempo. Especificamente, n\u00f3s a utilizamos para examinar como plantas, animais, humanos e outras formas de vida na paisagem galega foram moldados e definidos historicamente na busca pela prosperidade. A ditadura franquista, que durou de 1939 a 1975, \u00e9 importante de considerar ao tratar da governan\u00e7a ambiental na Gal\u00edcia, pois sua paisagem foi implacavelmente moldada por interven\u00e7\u00f5es conduzidas por esse Estado ditatorial. Para reduzir a depend\u00eancia de mat\u00e9rias-primas estrangeiras, o regime de Franco buscou localizar a produ\u00e7\u00e3o, como a de celulose para papel, produtos qu\u00edmicos, armas e mais. Para garantir a biomassa necess\u00e1ria, o regime se apropriou de terras comunais \u2014 mais de um quarto do territ\u00f3rio da Gal\u00edcia \u2014 e transformou paisagens diversas em planta\u00e7\u00f5es de monocultura. O eucalipto, valorizado por seu r\u00e1pido crescimento, foi visto como uma solu\u00e7\u00e3o promissora para a depend\u00eancia espanhola de importa\u00e7\u00f5es, remodelando a paisagem galega em busca da autossufici\u00eancia nacional. Assim, as qualidades essenciais do eucalipto como \u00e1rvore de r\u00e1pido crescimento justificaram interven\u00e7\u00f5es em larga escala nas terras comunais para transform\u00e1-las em planta\u00e7\u00f5es \u2014 por sua vez, moldando essas chamadas qualidades intr\u00ednsecas.        <\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Destrui\u00e7\u00e3o como Cuidado <\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atos de destrui\u00e7\u00e3o com as <em>Brigadas Deseucaliptizadoras<\/em> situam-se em um contexto hist\u00f3rico de interven\u00e7\u00f5es do Estado em terras comunais. Para que possam ser imaginados como atos de cuidado, eles respondem a como uma comunidade mais-que-humana foi moldada ao longo do tempo. O antagonismo incorporado pelo eucalipto para as comunidades n\u00e3o \u00e9 uma qualidade intr\u00ednseca, como alegam afirma\u00e7\u00f5es de conhecimento feitas por cientistas que trabalham para regimes estatais (por exemplo, o eucalipto como \u00e1rvore de r\u00e1pido crescimento para a ind\u00fastria de celulose, ou como um absorvedor \u00fatil de di\u00f3xido de carbono em tempos posteriores); em vez disso, os atos de destrui\u00e7\u00e3o concebem as \u00e1rvores (e outros seres, formas de vida, humanos) de maneira diferente, a saber, como existentes dentro de rela\u00e7\u00f5es socioecol\u00f3gicas. Nesse sentido, abordar a pol\u00edtica ambiental nas terras comunais galegas por meio do arcabou\u00e7o dos imagin\u00e1rios sociot\u00e9cnicos afrouxa as qualidades intr\u00ednsecas, \u201cnaturais\u201d, de determinadas \u00e1rvores para expor sua depend\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es socioecol\u00f3gicas, ao mesmo tempo em que tamb\u00e9m sacode a categoria mais-que-humana que a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre cuidado mais-que-humano desenvolve. Os seres que participam da teia mais-que-humana de que cuidamos <em>for <\/em>e que cuida <em>of <\/em>n\u00f3s tornam-se conhec\u00edveis de outra forma ao apreciar a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de \u00e1rvores como o eucalipto. Nosso artigo chama aten\u00e7\u00e3o para o papel do conhecimento na ordena\u00e7\u00e3o de comunidades mais-que-humanas e permite que a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre cuidado mais-que-humano explore atos que podem n\u00e3o parecer, \u00e0 primeira vista, cheios de cuidado. Como a destrui\u00e7\u00e3o.       <\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A imagem de capa \u00e9 de Noortje Marie Keurhorst<\/em>. <em>Este trabalho est\u00e1 licenciado sob uma <a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-nd\/4.0\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Licen\u00e7a Internacional Creative Commons Atribui\u00e7\u00e3o-N\u00e3oComercial-SemDeriva\u00e7\u00f5es 4.0<\/a>.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Destrui\u00e7\u00e3o como cuidado significa imaginar o florescimento mais-que-humano. A experi\u00eancia das terras comunais galegas desafia a ideia de que o cuidado apenas sustenta a vida. Atos de destrui\u00e7\u00e3o, como cortar \u00e1rvores, tamb\u00e9m podem ser cuidado, questionando qual vida est\u00e1 sendo reproduzida e por qu\u00ea. Relacionalidades mais-que-humanas na gest\u00e3o da terra ampliam as ideias de reciprocidade ecol\u00f3gica.   <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_relevanssi_hide_post":"","_relevanssi_hide_content":"","_relevanssi_pin_for_all":"","_relevanssi_pin_keywords":"","_relevanssi_unpin_keywords":"","_relevanssi_related_keywords":"","_relevanssi_related_include_ids":"","_relevanssi_related_exclude_ids":"","_relevanssi_related_no_append":"","_relevanssi_related_not_related":"","_relevanssi_related_posts":"","_relevanssi_noindex_reason":"","_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[395],"tags":[362,357],"authors":[585],"class_list":["post-5509","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog-de-documentos-de-trabalho","tag-cuidado-ecologico","tag-praticas-sociais","authors-noortje-marie-keurhorst"],"acf":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo.jpeg",2048,1536,false],"thumbnail":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-300x225.jpeg",300,225,true],"medium_large":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-768x576.jpeg",768,576,true],"large":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-1024x768.jpeg",1024,768,true],"1536x1536":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-1536x1152.jpeg",1536,1152,true],"2048x2048":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo.jpeg",2048,1536,false],"featured-card":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-900x450.jpeg",900,450,true],"card":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-500x280.jpeg",500,280,true],"profile":["https:\/\/revaluingcare.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Brigadas-photo-160x160.jpeg",160,160,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"rcge-admin","author_link":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/author\/rcge-admin\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Destrui\u00e7\u00e3o como cuidado significa imaginar o florescimento mais-que-humano. A experi\u00eancia das terras comunais galegas desafia a ideia de que o cuidado apenas sustenta a vida. Atos de destrui\u00e7\u00e3o, como cortar \u00e1rvores, tamb\u00e9m podem ser cuidado, questionando qual vida est\u00e1 sendo reproduzida e por qu\u00ea. Relacionalidades mais-que-humanas na gest\u00e3o da terra ampliam as ideias de reciprocidade\u2026","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5509","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5509"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5509\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5509"},{"taxonomy":"authors","embeddable":true,"href":"https:\/\/revaluingcare.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/authors?post=5509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}